Podcast ‘O Luto de a Luta’ tem novo episódio: Terror Coletivo

    Está no ar o segundo episódio do podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”, parceria da Central 3 com a Ponte Jornalismo. Ouça aqui

    Fernando Luís de Paula, Rodrigo Lima da Silva, Adalberto Brito da Costa, Antônio Neves Neto, Leandro Pereira Assunção, Manuel dos Santos, Thiago Marcos Damas, Tiago Teixeira de Souza, Deivison Lopes Ferreira, Wilker Thiago Correa Osório, Jailton Vieira da Silva, Eduardo Oliveira Santos, Igor Silva Oliveira, Jonas dos Santos Soares, Joseval Amaral da Silva, Rafael Nunes de Oliveira, Presley Santos Gonçalves.

    Esses são os nomes das vítimas de 13 de agosto de 2015 da Chacina de Osasco e Barueri. Há ainda uma décima oitava vítima, um homem não identificado, e pelo menos três “sobreviventes, que viriam a falecer posteriormente em decorrência dos ferimentos — isso sem contar os ataques de 8 de agosto, conhecidos como “pré-chacina”.  

    Leia também: O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri

    No primeiro episódio de “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”, vimos que foram pelo menos 29 as vítimas fatais de um grupo de extermínio composto por agentes de segurança oriundos da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana (GCM) da cidade de Barueri. Encapuzados, fora de serviço e utilizando-se de equipamento e expertise adquiridos no serviço público, cerca de 10 homens promoveram matanças em 8 e 13 de agosto de 2015. O motivo: vingança pelas mortes de um policial militar e um GCM que faziam bicos ilegais em comércios locais.

    É comum que as chacinas e massacres cometidos por agentes do Estado — com ou sem farda, em serviço ou fora de serviço — sejam motivados por vinganças dessa natureza. Vimos diversos desses casos tomarem as páginas dos grandes jornais. No caso mais recente, a morte do PM Patrick Reis, da Rota, disparou as operações Escudo e Verão que mataram, juntas, 84 moradores da Baixada Santista. A represália é sempre coletiva, e sempre brutal.

    Vingança que não veio da tropa, mas do “bico”

    Funciona mais ou menos assim: alguém mata o agente e, para demonstrar controle sobre o território, dezenas de pessoas inocentes vão ser executadas. No caso de Osasco e Barueri, nenhum dos mortos na chacina tinha relação com as mortes dos policiais nos dias anteriores. Eram pessoas que estavam tomando uma cerveja no bar ao lado de casa, se dirigindo a pé para a casa de algum parente, ou indo buscar comida em pizzarias e mercadinhos.

    Outro ponto sobre Osasco é que diferente das operações “Verão” e “Escudo” a vingança não foi da tropa, mas do bico. Afinal de contas, se os agentes oferecem serviços ilegais de segurança e acabam mortos por qualquer jovem que tente empreender um assalto, então esse negócio acaba perdendo a credibilidade. Logo, era importante para os assassinos mostrar quem é que manda na região.

    Fernando Luís de Paula, à época com 34 para 35 anos, havia acabado de pintar a casa de sua mãe, Zilda Maria de Paula, quando saiu para cortar o cabelo. Parou no Bar do Juvenal, da esquina de sua casa no bairro Jardim Munhoz Júnior, para tomar uma cerveja com um conhecido e levou um tiro na cara. Assim, sem mais nem menos.

    Leia também: O que foi a Chacina de Osasco e Barueri

    Só nesse bar 10 pessoas foram baleadas, sendo que 8 delas morreram no ato. Amauri Custódio, um dos sobreviventes, foi baleado no pescoço e acabou ficando com sequelas no sistema respiratório que o levaram ao óbito 9 anos depois, em 2024. Faleceu em decorrência das sequelas, engasgado com um pedaço de carne num churrasco.

    Letícia, uma adolescente atingida no meio da rua enquanto caminhava até a casa de uma amiga, morreria semanas depois, já no hospital, em decorrência dos ferimentos. Devison Lopes Ferreira, cujo pai já havia sido morto numa chacina semelhante anos antes, foi morto com seis tiros no meio da rua. Seu corpo ficou mais de 12 horas no asfalto até ser removido pelas autoridades.

    “Perdemos o pé no Brasil. O nível de violência é tão grande que tratamos com naturalidade as pessoas morrerem por qualquer coisa”, refletiu Acácio Augusto, coordenador do LASInTec. “Como assim se anda armado fulltime e do nada uma pessoa comum que tem seus amores, ódios e valores, sejam eles quais forem, toma um tiro e vai pro saco? Vira piada. CPF cancelado, não é mesmo? Isso é muito revelador sobre a sociabilidade brasileira, que evita o conflito. Só que quando ele é inevitável, ela coloca o conflito de forma assimétrica, com alguém que tenha força e autoridade para pacificar o conflito. E ‘pacificar’ no sentido dado à palavra no século XIX, que é quando o conflito some por força da violência”, diz Acácio.

    Ouça o episódio 2 – Terror Coletivo – e siga o podcast “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri” na sua plataforma de preferência:

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    Referências e pesquisa para o episódio

    BOLETIM (ANTI) SEGURANÇA – LASInTec-UNIFESP

    #44 – Uma década de luta, uma vida inteira dedicada à memória: os 10 anos da chacina de Osasco e Barueri. 13/08/2025.

    #38 – 9 anos da maior chacina de SP: nem perdão, nem esquecimento. 16/08/2024.

    #25 – Ato em memória dos executados pela Chacina de Osasco e Barueri em 2015. 12/08/2022.

    #21 – Estado = Milícia: Fluxos de extermínios na democracia securitária e a incontrolável abolição da polícia. 25/03/2022.

    Reportagens televisivas da época dos acontecimentos utilizadas no episódio

    Rede CNT – Jornal de 14/08/2015.

    Rede TVT: Chacina de Osasco e Barueri pode ter tido participação de policiais militares. 14/08/2015.

    SPTV/TV GLOBO: Moradores mudam rotina após chacina em cidades da Grande São Paulo. 15/08/2015.

    SP no Ar/SBT: Entenda mais sobre a chacina de Osasco (SP). 18/08/2015.

    Jornal da Gazeta/TV Gazeta: Chacinas na região de Osasco deixam 19 mortos. 14/08/2015.

    Fantástico/TV GLOBO: Testemunhas que escaparam de chacina em SP revelam ação de criminosos. 16/08/2015.

    Café com Jornal/BAND NEWS: Imagens do telejornal de 14 de agosto de 2015

    GLOBONEWS: Chacina em Osasco e Barueri mata, pelo menos, 16 pessoas.

    SP1/TV GLOBO: Famílias começam a reconhecer corpos de vítimas de chacinas na Grande São Paulo. 17/08/2015.

    Reportagens escritas e produções em audiovisual utilizadas no episódio

    Ponte: MP denuncia PM por participação em chacina de Carapicuíba. Luís Adorno e André Caramante, 13 de novembro de 2015.

    Ponte: Justiça absolve PM acusado de participar da chacina de 8 de agosto de 2015 em Carapicuíba. Luís Adorno, 13 de dezembro de 2016.

    Brasil de Fato: Com mães em luta contra a violência que se repete, chacina de Osasco e Barueri completa 7 anos. Gabriela Moncau, 13 de agosto de 2022.

    Revista Fórum: Acusado de envolvimento na Chacina de Osasco e Barueri é reintegrados à PM por Tarcísio. Raphael Sanz, 03 de agosto de 2023.

    Correio da Cidadania: Prestes a completar 6 anos, a maior chacina já registrada em SP tem novo episódio de impunidade. Raphael Sanz em 9 de março de 2021.

    Associação 13 de Agosto: Pela afirmação da vida, pela liberdade e contra a brutalidade policial. Nota pública, fevereiro 2021.

    Memórias da Ditadura. Dona Zilda – Na luta por Justiça pelo filho, Dona Zilda se mantém de pé

    Ponte: Zilda Maria de Paula: ‘Não sossego enquanto não houver justiça’. Luís Adorno em 14 de maio de 2021.

    Caio Castor: “Eu já tô morta. Não dá pra morrer duas vezes”, diz Dona Zilda, mãe de vítima da maior chacina de SP. Agência Pavio e El País Brasil.

    Ficha técnica:

    • O Luto e a Luta é apresentado por Raphael Sanz e Gil Luiz Mendes.
    • O podcast é fruto de parceria entre a Central 3, a Ponte Jornalismo, o LASInTec-Unifesp e a Associação 13 de Agosto (de mães e familiares de vítimas da chacina).
    • O roteiro é de Raphael Sanz.        
    • A identidade visual é de Lucas Richardson e Carlos Ghiraldelli da Seppia Conteúdo.
    • Domenica Mendes fez a revisão dos roteiros e episódios.        
    • A edição é de Gil Luiz Mendes.         

    Gil Luiz Mendes é jornalista, repórter na Ponte Jornalismo e apresentador da rádio Central 3.
    Raphael Sanz é jornalista, pesquisador ligado ao LASInTec-Unifesp e acompanha movimentos sociais há 20 anos.

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