Polícia usa força como intimidação política no Rio de Janeiro, aponta pesquisa

Estudo realizado pelo Observatório de Favelas em parceria com a UFF e a UERJ registrou 58 casos de violência política cometida por policiais entre janeiro de 2022 e junho de 2025 — com aumento da incidência em períodos eleitorais

Na imagem, uma fileira de viaturas da Polícia Militar do Rio de Janeiro (PMERJ) está estacionada lado a lado. Os carros são brancos e azuis, com o brasão da corporação estampado na porta e luzes de emergência vermelhas no teto. Ao fundo, aparecem prédios altos, árvores e alguns policiais em pé, em formação.
Viaturas da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Estudo mostra que agentes da corporação estiveram envolvidos em 58 casos de violência política entre 2022 e 2025 | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O uso da força policial deixou de ser apenas instrumento de segurança pública para se consolidar como prática de intimidação política no Rio de Janeiro. É o que mostra a pesquisa Violência e crime no cotidiano da política, realizada pelo Observatório de Favelas em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Entre janeiro de 2022 e junho de 2025, os pesquisadores registraram 58 casos de violência política cometida por policiais, a maior parte durante o serviço. Foram episódios de repressão a manifestações, prisões arbitrárias e uso desproporcional da força — em alguns casos, execuções.

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Os dados se referem à região metropolitana do Rio de Janeiro e à Baía da Ilha Grande, levantados a partir do monitoramento sistemático de notícias da imprensa feito pelo Observatório de Favelas em parceria com as universidades.

“É um cenário que mostra o quanto as instituições policiais são pouco preparadas para lidar com manifestações democráticas”, afirmou Leandro Marinho, coordenador da pesquisa, durante a apresentação dos dados.

Politização e uso desproporcional da força

As cenas se repetem: operações em favelas terminam em violência contra moradores; quando esses moradores tentam protestar, sofrem nova repressão. Para o pesquisador André Rodrigues esse comportamento representa uma “dupla vitimização”. “Primeiro a brutalidade das incursões, depois o silenciamento das vozes que ousam denunciar. E muitas vezes esses protestos nem são reconhecidos como manifestações políticas legítimas, são tratados como atos de facções criminosas.”

O relatório também chama atenção para episódios em que policiais fora de serviço estiveram envolvidos em violências políticas. Foram 14 casos no período, incluindo duas execuções e confrontos físicos em campanhas eleitorais. Nesses episódios, as mulheres — inclusive uma mulher trans — foram as principais vítimas, alvo de ameaças, intimidações e agressões durante disputas locais.

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Na Baixada Fluminense, região marcada pela sobreposição de violência estatal e de grupos armados, ocorreram oito desses casos: quatro com agressões físicas e quatro com disparos de arma de fogo. Em um deles, um policial militar que também era político atirou contra uma carreata de adversários.

Se os policiais figuram como agressores, os negros aparecem como principais vítimas. Entre 2022 e 2024, o número de casos contra pessoas negras quase dobrou, enquanto entre pessoas brancas houve estabilidade com leve queda. Em 2024, ano de eleições municipais, pessoas negras passaram a ser o grupo mais atingido.

Negros predominantemente no alvo

“À medida que candidaturas negras crescem, elas também são mais atacadas”, observou Marinho. Ele lembra que as eleições de 2024 marcaram a segunda vez na história brasileira em que candidaturas negras superaram as brancas, alcançando mais de 50% do total registrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse avanço, no entanto, veio acompanhado de maior exposição à violência.

Para Rodrigues, a combinação entre repressão policial e racismo estrutural explica parte dessa dinâmica: “Os territórios mais atingidos pelas operações policiais são de maioria negra. Quando moradores tentam reagir politicamente, sofrem uma segunda onda de violência. Isso tem efeito direto de exclusão e silenciamento das lideranças negras.”

Violência como regra

No ciclo de 2022 a 2025, o Observatório registrou 267 casos de violência política na região metropolitana do Rio de Janeiro e na Baía da Ilha Grande. Um em cada três episódios teve motivações de ódio — racismo, misoginia, transfobia ou partidarização.

A concentração é ainda maior nos períodos eleitorais. Entre junho e outubro de 2024, ano de eleições municipais, houve 71 episódios, quase três vezes mais do que a média dos demais meses. O ritmo de assassinatos também se intensifica: fora das eleições, ocorre um assassinato político a cada 75 dias; durante o período eleitoral, a média cai para um a cada 22 dias.

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Políticos eleitos também aparecem como agressores, sobretudo em áreas de milícias. O levantamento indica que, proporcionalmente, eles atacam mais mulheres cis, trans e travestis do que outros grupos. Já as violências cometidas por policiais em serviço se concentram em áreas de facções ligadas ao tráfico, evidenciando a desigualdade no tratamento entre territórios.

Justiça que não vê política

A pesquisa analisou ainda 77 casos de assassinatos políticos ocorridos na Baixada Fluminense desde 2015. Em 20 deles, os pesquisadores tiveram acesso completo aos processos judiciais. A conclusão é que a motivação política costuma ser ignorada: investigações e denúncias são rápidas, mas sem aprofundar o caráter político dos crimes.

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“Ódio, ameaça e violência se tornaram moedas correntes na política. E quando isso se volta contra lideranças negras e é praticado por agentes do próprio Estado, a democracia perde seu sentido mais básico”, sintetiza o relatório.

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