Victor Santos, Felipe Curi e Marcelo de Menezes defenderam como “planejada” e “necessária” a ação que terminou com mais de 120 mortos na zona norte do Rio. Para especialista, episódio “escancara a falta de um plano unificado de segurança”

O Massacre do Alemão e da Penha, que soma ao menos 121 mortos segundo dados oficiais, escancarou a política de confronto como método de segurança pública no Rio. Moradores enfileiraram dezenas de corpos na Praça São Lucas, na Penha, retirados de uma área de mata onde ficaram abandonados após a operação. Enquanto isso, o governador Cláudio Castro (PL) chamou a ação de “sucesso” e disse que as “verdadeiras vítimas” foram os quatro policiais mortos.
A operação não foi conduzida no vácuo. À frente dela estavam três secretários escolhidos por Castro: Victor Santos, delegado federal aposentado e secretário de Segurança Pública; Felipe Curi, delegado e secretário de Polícia Civil; e o coronel Marcelo de Menezes Nogueira, secretário da Polícia Militar. Além das trajetórias em cargos de repressão, todos vieram a público elogiar a ação, classificando-a como “planejada”, “necessária” ou prometendo “resposta à altura” — mesmo com mais de cem mortos.
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Victor Santos: delegado da PF ligado ao bolsonarismo
Até 2019, o Rio de Janeiro tinha uma Secretaria de Segurança Pública unificada, extinta na gestão Wilson Witzel. A estrutura ficou dividida entre as polícias Civil e Militar até 2023, quando Cláudio Castro recriou a pasta e nomeou Victor Santos. Desde então, três secretarias concentram as principais decisões sobre repressão: Segurança Pública, Polícia Civil e Polícia Militar.
Victor tem mais de 20 anos de carreira na Polícia Federal, com passagens pela repressão a entorpecentes no Rio, pela corregedoria e pela superintendência no Distrito Federal. Foi indicado ao cargo de superintendente em Brasília por Flávio Bolsonaro. Nesse posto, durante os atos golpistas de 8 de janeiro, sugeriu que presos fossem transferidos para prisão domiciliar por falta de vagas — foi exonerado no dia seguinte, conforme publicado pelo g1 em 2023.
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Aposentado, foi convidado por Castro em 2023 para comandar a secretaria recriada. Desde o início, sinalizou oposição a controles externos. Em entrevista à CNN Brasil, em janeiro de 2025, pediu que a ADPF das Favelas fosse considerada improcedente: que “o Rio de Janeiro fique livre dessa ADPF”.
A ADPF das Favelas foi ajuizada em 2019 pelo PSB, após denúncias de movimentos sociais e organizações de direitos humanos, para conter a letalidade policial. As decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) impuseram restrições às operações — suspensão durante a pandemia, comunicação prévia ao Ministério Público, limitação ao uso de helicópteros como plataformas de tiro e adoção de câmeras em fardas e viaturas.

A reviravolta no STF: demanda passou a ser “retomar territórios”
Essas medidas reduziram em mais de 50% as mortes por intervenção policial entre 2019 e 2023, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O julgamento terminou em abril de 2025. O relator Edson Fachin manteve a exigência de um plano estadual de redução da letalidade, mas introduziu a retórica de “recuperar territórios” dominados por facções e milícias — uma guinada criticada por movimentos sociais, que associam a militarização ao fracasso das UPPs.
Durante o massacre, Santos falou em “9 milhões de metros quadrados de desordem urbana” e cobrou ajuda federal. Apesar do número de mortos, classificou a operação como “sucesso” e prometeu continuidade. Mesmo após a denúncia publicada pela Folha de S.Paulo de que as forças de segurança sabiam, com quatro horas de antecedência, que a operação havia vazado, Santos negou qualquer irregularidade. Em coletiva, chamou a reportagem de “fake news” e disse ser “impossível achar que uma operação com 2.500 policiais passaria despercebida”.
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A resposta oficial contrasta com documentos citados pelo jornal, segundo os quais policiais relataram confronto com homens armados que teriam deixado o Alemão após saber da ação — indício de que o elemento surpresa já havia se perdido. Enquanto moradores recolhiam corpos em áreas de mata, o secretário exaltava apreensões de armas e pedia que a população visse a polícia como “protetora, não repressora”.

Felipe Curi: discurso de confronto
Felipe Curi é delegado de carreira. Dirigiu o Departamento-Geral de Homicídios e a Polícia Especializada, acumulando mais de 5 mil prisões, segundo o governo do estado. Foi um dos responsáveis pela operação que matou Wellington da Silva Braga, o Ecko, chefe da maior milícia do Rio, em 2021. Sua relação com o Alemão é antiga: em 2013, assumiu a recém-criada 45ª DP, extinta cinco anos depois. Em 2016, foi baleado em operação na mesma região.
Assim como Santos, Curi veio a público defender a operação. Cultiva uma imagem pública de endurecimento. No Instagram, escreveu em sua biografia: “Não acredite em narrativas anti-polícia”. Após o massacre, atacou críticos chamando-os de “narcoativistas” e disse que nem a NASA conseguiria atuar nas favelas.
Defendeu a ação como fruto de “planejamento exaustivo”. Em coletiva, rebateu críticas de movimentos sociais e especialistas, afirmando que quem questionava “não tem a menor ideia do que está falando”. Também chamou opositores de “engenheiros de obra pronta” e “falsos especialistas”. Curi também entrou no radar eleitoral: segundo o colunista Ancelmo Gois, o PL avalia lançar seu nome para o governo do estado, repetindo a lógica do “governador faroeste” encarnada por Wilson Witzel em 2018.
Marcelo de Menezes Nogueira: promessa de resposta
O coronel Marcelo de Menezes Nogueira ingressou na PM em 1991. É formado em Direito e Engenharia Civil e passou por diversos comandos: 6º Comando de Policiamento de Área da Polícia Militar(CPA), 17º Batalhão de Policia Militar (Ilha do Governador), Comando de Polícia Especializada (CPE), Coordenadoria do Programa Estadual de Integração na Segurança (CPROEIS) e cargos administrativos como a Coordenadoria Militar da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e a Subsecretaria Militar da Casa Civil.
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Recebeu a Medalha Pedro Ernesto da Câmara do Rio (2019) e a Medalha Tiradentes da Alerj (2022). Sua nomeação, em 2024, foi resultado de disputas internas na corporação e de influência política: segundo o Extra, o nome foi sugerido ao governador por aliados como o ex-comandante do Bope Maurílio Nunes e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar.
No velório de dois sargentos mortos na operação, prometeu: “A resposta será dada à altura desses heróis”, conforme publicado pelo g1 Rio. A fala ocorreu enquanto moradores ainda encontravam dezenas de corpos civis abandonados entre o Alemão e a Penha, reforçando o tom de guerra que marcou as reações oficiais à operação.
Especialistas apontam desarticulação e lógica de confronto
As declarações dos secretários e o saldo da operação reforçaram um padrão já conhecido na política de segurança do Rio, baseado na letalidade e na ausência de coordenação entre as forças policiais. Pesquisadores e organizações da sociedade civil afirmam que o massacre do Alemão e da Penha não foi um desvio, mas o resultado previsível de um modelo que aposta no confronto em vez de planejamento.
Para Pablo Nunes, diretor do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), o episódio “escancara a falta de um plano unificado de segurança no estado”. Ele lembra que a coexistência de três secretarias autônomas — Segurança Pública, Polícia Civil e Polícia Militar — “gera ações desarticuladas, sem metas compartilhadas nem coordenação real”. Pablo avalia que “esse modelo se consolidou no Rio como uma política voltada para o combate e para a morte, sem planejamento e sem articulação institucional”.
A advogada Rhaysa Ruas, secretária executiva do Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro, afirma que o posicionamento das autoridades “demonstra a brutalidade com que o governo administra as favelas e periferias”. Para ela, “tratar esses territórios como espaços de desordem é uma forma de desumanizar seus moradores e negar a vida que existe ali”. Rhaysa acrescenta que “encarar um massacre como uma operação de sucesso destrói qualquer perspectiva de uma segurança pública que garanta direitos” e reforça o fracasso do plano estadual de redução da letalidade policial.
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Na avaliação do pesquisador Daniel Octaviano, do Observatório de Favelas, o massacre revela “uma política de segurança orientada à produção da morte”. Ele critica o investimento estatal em armamentos e a lógica militarizada da gestão pública. “A violência tem sido usada como instrumento de poder e controle”, afirma. Segundo ele, “o que se vende como segurança é, na prática, uma política de guerra lucrativa e seletiva, que define quem pode viver e quem deve morrer”.