Massacre do Alemão e da Penha tem mais dezenas de mortos encontrados e supera Carandiru

    Moradores enfileiram corpos na Praça São Lucas, na Penha, zona norte do Rio, achados em área de mata que liga o bairro ao complexo do Alemão. Número de mortos da chamada “operação” do governo Cláudio Castro supera o de fuzis apreendidos e coloca o episódio entre as maiores chacinas do país

    Corpos de vítimas foram enfileirados por moradores na Penha, no Rio | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Moradores dos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, têm encontrado desde a madrugada desta quarta-feira (29/10) corpos de dezenas de pessoas mortas pela operação policial realizada na região no dia anterior. Até o começo da manhã, eram mais 60 as vítimas fatais, achadas em uma área de mata que liga os dois complexos de favelas. As novas vítimas se juntam às outras 64 mortes confirmadas na terça (28/10), sendo 60 de civis e as outras quatro de policiais.

    Já são então ao menos 124 mortes, o que ainda pode aumentar, já que os moradores seguem em busca de outros corpos deixados pelas forças de segurança pública fluminenses. O número é maior até do que a quantidade de fuzis que o governo Cláudio Castro (PL) diz ter sido apreendido na operação (93).

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    Até o dia anterior, a operação já era a mais letal da história do estado. Agora, o episódio está também entre os maiores massacres do Brasil republicano: supera o Massacre do Carandiru, em que ao menos 111 pessoas foram mortas pela Polícia Militar de São Paulo (PM-SP), há 33 anos.

    Fica atrás do total de mortos nos 21 anos da ditadura civil-militar — ao menos 434 pessoas, segundo a Comissão Nacional da Verdade (CNV) — e dos Crimes de Maio, ocasião em que, em 2006, houve 564 mortes em São Paulo em meio a um conflito de policiais e grupos de extermínio paramilitares contra a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).

    As vítimas recém-encontradas foram enfileiradas sobre lonas na Praça São Lucas, na Penha, onde moradores se reunem em número cada vez maior na tentativa de identificá-las e consolar vizinhos. Os corpos chegavam em caminhonetes de moradores. Alguns mortos estavam sem a cabeça. Do local, a Defesa Civil passou a levar os corpos para o Instituto Médico Legal (IML), no centro da capital fluminense, com acesso restrito a policiais e integrantes do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).

    Familiares que pretendem reconhecer as vítimas terão de aguardar em um prédio ao lado, na sede do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). Há relatos de pessoas em situação de rua que teriam sido assassinadas, o que pode dificultar a identificação, por não terem rede de apoio.

    Abandono de corpos visa prejudicar perícia, diz especialista

    Para Fransérgio Goulart, coordenador-executivo da Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), a operação se tratou de um massacre e uma nova expressão da política de genocídio em curso no estado. “Extrapolou todos os acordos de direitos humanos. Nenhuma polícia do mundo fez esse tipo de execução, se não há uma guerra declarada entre oponentes. É um genocídio, uma barbárie.”

    Ele diz que o IDMJR entende também que o abandono dos corpos foi uma estratégia deliberada pelas forças de segurança, para que os familiares os buscassem. “O Estado executou e deixou os corpos lá para que as famílias metessem a mão, e, com isso, dificultar qualquer tipo de investigação ou perícia. O corpo não está mais na cena, então a cadeia de custódia das provas foi quebrada.”

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    Diretor da Human Rights Watch (HRW) no Brasil, César Munõz diz que, em operações anteriores, o esclarecimento do ocorrido também foi prejudicado, como no caso da chacina policial do Jacarezinho, de 2021, que era, até então, a mais letal da história do Rio de Janeiro, com 28 mortes. “É fundamental ter uma investigação bem feita, e o problema é que, historicamente, não tivemos isso.”

    “Se você não determina o que aconteceu nessas circunstâncias, os abusos continuam. Agora estamos vendo os mesmos problemas. Teriam de ser feitas perícias com muito rigor, e os corpos estão sendo achados por familiares. Eles movem os corpos, e não há ninguém lá. O que não pode acontecer é deixar a investigação nas mãos da Polícia Civil, porque já vimos que isso não funciona”, diz ainda.

    Moradores se juntaram para reconhecer vítimas e consolar vizinhos | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Elucidação do massacre exige investigação a nível federal

    No Rio de Janeiro, o departamento de Policia Técnico-Científica, responsável por periciar corpos e as cenas de crimes, está submetido à Polícia Civil, que foi uma das responsáveis pela operação. Fransérgio, do IDMJR, diz que a perícia anunciada pelo MPRJ, responsável pelo controle externo das polícias, também não é independente, já que o órgão foi outro a participar da chamada Operação Contenção.

    O IDMJR pede que seja feita também uma investigação por órgãos federais. O pedido é encampado também por outros movimentos sociais que foram consultados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, conhecida como “ADPF das Favelas” — no processo, apareceram como amicus curiae, ou “amigos da corte” em tradução do latim.

    César, do HRW, concorda que a elucidação do episódio exige esforços para além do estado: “A responsabilidade imediata é do MPRJ, mas uma operação com esse resultado deve mobilizar autoridades de todos os níveis. Tem que ser investigados o comando das polícias e as autoridades do Rio”.

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    Uma carta assinada por 28 entidades civis de promoção dos direitos humanos também cobrou a investigação e responsabilização dos envolvidos, incluindo o governador Cláudio Castro, que teve, em sua gestão, quatro das cinco operações policiais mais letais do estado. “Desde os anos 1990, sucessivos governos ignoram propostas de segurança pública orientadas pela prevenção, pela redução da violência e pelo fortalecimento de direitos. O investimento segue voltado ao confronto, com resultados trágicos e repetidos: mais mortes, mais dor e nenhuma segurança”, escreveram.

    O Alto Comissariado dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) também repudiou o ocorrido. “Esta operação mortal reforça a tendência de consequências letais extremas das operações policiais nas comunidades marginalizadas do Brasil. Lembramos às autoridades suas obrigações sob o direito internacional dos direitos humanos e pedimos investigações rápidas e eficazes”, publicou nas redes sociais.

    Castro celebra ‘sucesso’ de operação mesmo com corpos enfileirados

    O governador Cláudio Castro voltou a celebrar a megaoperação policial em uma coletiva de imprensa nesta quarta, classificando o episódio como um “sucesso”. Ele ignorou os relatos de moradores do Alemão e da Penha e insistiu que as “verdadeiras vítimas” foram os quatro policiais mortos.

    Em resposta às denúncias de execuções, Castro disse que “ninguém vai passear em mata em dia de operação policial”. Ao longo do discurso, exaltou um suposto apoio popular à operação, afirmou que não aceitará “politicagem” e pediu integração e financiamento do governo federal contra o crime organizado.

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    O governador disse ainda ter conversado com o ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa (PT), e solicitado vagas em presídios federais para isolar lideranças criminosas, além de relatar contatos com outras autoridades locais. Segundo ele, a vida na cidade já começava a “voltar ao normal” com a retomada do transporte público e o funcionamento de empresas, universidades e escolas.

    Castro também afirmou que o Rio não teme fiscalização. Segundo ele, a operação envolveu mais de um ano de investigação e 60 dias de planejamento com participação do Ministério Público. Disse que todo o material apreendido seria apresentado à imprensa, como demonstração de transparência.

    Corpos passaram a ser levados para o IML, no centro do Rio | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

    Operação não diz se prendeu principal alvo de mandados

    A operação foi deflagrada para cumprir mandados expedidos pela 42ª Vara Criminal da Capital, solicitados pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. Os pedidos vieram após uma investigação conduzida pelo órgão, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), junto da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), submetida à Polícia Civil.

    Segundo o Ministério Público, 67 pessoas foram denunciadas pelo crime de associação para o tráfico. Três delas também devem responder por tortura. O principal alvo seria Edgar Alves de Andrade, liderança da facção criminosa Comando Vermelho — até aqui, a operação não conseguiu, no entanto, prendê-lo. A Polícia Civil diz que foram apreendidas “diversas armas, drogas e rádios comunicadores”.

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    A ação fez uso de 2,5 mil policiais, dois helicópteros, drones, 32 blindados terrestres e 12 veículos de demolição. Também participam a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil; a Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI), do MPRJ; e o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), unidade de elite da Polícia Militar (PMERJ).

    Em razão dos tiroteios, 48 unidades municipais de ensino foram impactadas na terça, segundo a prefeitura do Rio — entre elas, 31 estão no Alemão e as demais, na Penha. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) cancelaram aulas. Mais de 200 linhas de ônibus tiveram o itinerário afetado e 71 veículos foram usados como barricadas.

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