Tudo o que você precisa saber sobre a remoção da favela do Moinho

    Comunidade na região central de São Paulo passa por tumultuado processo de remoção dos moradores desde o ano passado. Local teve protestos reprimidos com violência pela PM-SP e prisões de lideranças da luta por moradia digna

    Menino com camiseta da seleção brasileira de futebol aparece de costas em quadra de futebol na favela do Moinho, em São Paulo.
    Favela passa por processo de remoção desde o ano passado | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    A favela do Moinho, na região central de São Paulo, passa por um tumultuado processo de remoção dos moradores desde o ano passado. Neste período, a comunidade teve protestos reprimidos com violência pela Polícia Militar paulista (PM-SP) e prisões de lideranças da luta por moradia digna. O território também virou palco de disputa entre Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Lula (PT).

    A Ponte reúne abaixo perguntas e respostas para quem quer entender o que se passa no local:

    Onde fica a favela do Moinho?

    A comunidade está localizada no bairro dos Campos Elíseos, na divisa com o Bom Retiro. Trata-se da última favela da região central de São Paulo. Ela tem uma entrada embaixo do Viaduto Engenheiro Orlando Murgel e está à beira de trilhos pelos quais passam trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

    O nome da comunidade remete ao Moinho Central, uma antiga fábrica de processamento de farinha e produção de ração que ocupava o terreno. A empresa foi desativada nos anos 1980. Já na década seguinte surgiram os primeiros barracos da favela. Dessa época, ainda resta um enorme silo no local.

    Silo do antigo Moinho Central se mantém de pé ao fundo da favela | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Quantas famílias vivem na comunidade?

    O Censo de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), identificou que 1.827 pessoas viviam na favela do Moinho naquela altura. A Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que conduz o processo de remoção da comunidade, afirma ter identificado 931 moradias no local no ano passado e ter tido a adesão de 880 famílias ao plano de reassentamento delas.

    A CDHU diz que, até o começo de novembro deste ano, 678 famílias já haviam se mudado da favela do Moinho. A impressão de moradores relatada à Ponte é de que cerca de 300 famílias seguem no local.

    Quando começou o processo de remoção?

    A CDHU iniciou o mapeamento da comunidade em setembro do ano passado. Entre outubro e novembro também de 2024, fez o cadastramento das famílias que deveriam ser reassentadas. Os moradores começaram a deixar a favela em abril de 2025, pressionados pela violência policial no local.

    Também em abril deste ano, tiveram início os protestos de moradores contra o processo de remoção. As manifestações de maior projeção ocorreram em maio, ocasião que a PM-SP montou um cerco à comunidade para apoiar a CDHU em demolições de casas e lançou bombas de gás lacrimogêneo contra moradores — vários deles, incluindo crianças, passaram mal com o pânico e a dificuldade de respirar.

    Por que Tarcísio quer agora remover a favela?

    A gestão Tarcísio insere a remoção da favela no contexto da alegada revitalização da região central: a comunidade está a menos de um quilômetro da Praça Princesa Isabel, para onde o governador pretende levar parte da sede administrativa do governo. Por conta disso, outras remoções estão em curso.

    O governo estadual também alega que a comunidade estaria submetida ao controle da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), que faria dela uma base do tráfico de drogas na Cracolândia — os usuários de crack, hoje espalhados pela região central de São Paulo, estavam concentrados até então em um fluxo maior a pouco mais de um quilômetro da favela, na Rua dos Protestantes.

    A favela do Moinho ainda está localizada em uma área de grande interesse imobiliário. O governador diz que, caso desocupe o espaço, pretende transformá-lo em um parque.

    PMs dispararam bombas e munição menos letal em protesto de moradores do Moinho no dia 15/4/2025: histórico de repressão policial | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Por que Lula também aparece nesse processo?

    O terreno ocupado pela favela pertence à União, o que ficou consolidado após um longo processo judicial. Por conta disso, o governo Lula também é responsabilizado pela remoção da comunidade — a investida de Tarcísio é feita sob a promessa de que a área será cedida ao Estado de São Paulo.

    A área pertencia até os anos de 1990 à Rede Ferroviária Federal (RFFSA), uma antiga empresa estatal de transporte ferroviário, extinta em 2007. Em 1999, quando a ocupação da favela já estava consolidada, a prefeitura de São Paulo leiloou o terreno em função de uma dívida de IPTU da RFFSA. O espaço foi arrematado por um empresário e um empresa por R$ 350 mil, embora estivesse avaliado em R$ 1 milhão.

    A União, que passou a suceder a RFFSA em seus interesses após a extinção da empresa, obteve na Justiça Federal a anulação do leilão, por não ter sido intimada sobre ele e em razão do valor considerado vil pelo qual o terreno foi arrematado. Em meio a esse processo, a Associação da Comunidade do Moinho chegou a obter uma decisão favorável em uma ação coletiva de usucapião em favor dos moradores da comunidade. Posteriormente, a Justiça Federal entendeu, contudo, que o pedido da entidade sequer deveria ter sido admitido, uma vez que os bens da União não podem ser objeto de usucapião.

    O que foi prometido para os moradores saírem da comunidade?

    Em um primeiro momento, o governo estadual propunha às famílias que aderiram ao reassentamento que comprassem um imóvel financiado mediante opções de atendimento habitacional operados pela CDHU. Às famílias que não deixassem a comunidade já para um imóvel permanente, a gestão Tarcísio também oferecia um auxílio-moradia de R$ 800 mensais — valor que destoa dos preços de aluguel praticados na região central de São Paulo — e um auxílio-mudança de R$ 2,4 mil a ser pago em uma parcela única.

    Vários moradores questionavam, no entanto, que não teriam condições de arcar com um financiamento. Já em maio, após intensos protestos, o governo federal anunciou um acordo junto do governo paulista: cada família passaria a ter direito a um imóvel gratuito de até R$ 250 mil, dos quais R$ 180 mil seriam pagos pelo “Minha Casa, Minha Vida”, da União, e o restante, pelo programa estadual “Casa Paulista”. O auxílio-aluguel também foi reajustado para R$ 1,2 mil mensais.

    Uma comitiva do governo federal esteve no Moinho na ocasião do acordo, enquanto ele era anunciado pelo ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, e pelo secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação de São Paulo, Marcelo Cardinale Branco, em uma coletiva de imprensa.

    Em junho, o próprio presidente Lula foi à favela do Moinho, acompanhado de uma comitiva de ministros, o que Tarcísio nunca fez. Na favela, o petista era celebrado pelos moradores como o responsável pelo acordo dos imóveis gratuitos. Ele criticou a violência policial na comunidade e deu recados ao governador de São Paulo, cotado como um possível adversário na corrida presidencial de 2026.

    Favela sob escombros se assemelha agora a cenário de guerra | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    O que foi cumprido do acordo anunciado?

    A CDHU diz que 780 famílias já teriam uma unidade habitacional de destino selecionada. No entanto, segundo a Caixa Econômica Federal, 636 foram consideradas até aqui elegíveis a receber o imóvel gratuito prometido. O banco estatal é responsável por concluir a compra da nova moradia escolhida por cada morador, enquanto a CDHU faz a triagem dos beneficiários.

    A Ponte identificou diversos casos de moradores que têm tido negado o direito a uma nova moradia. Há relatos de abandono inclusive pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo (DPESP), que deveria zelar pelos interesses das famílias e buscar reparação junto à CDHU.

    Em função disso, o governo Lula voltou a ser cobrado pelo cumprimento do acordo. A gestão federal tem se mantido em silêncio desde que lideranças comunitárias do Moinho foram presas em setembro.

    Quem são as lideranças presas na comunidade?

    Foram presas na comunidade, entre outras pessoas, Alessandra Moja Cunha e a filha dela, Yasmin Moja Flores — líderes de uma associação de moradores da comunidade. Para quem vive no local, trataram-se de prisões arbitrárias para enfraquecer a luta por moradia digna. Na ocasião da prisão, Alessandra teria sido vítima de tortura por policiais militares, segundo pessoas próximas.

    Já o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que deflagrou a Operação Sharpe, responsável pelas prisões, diz que a ação teve o objetivo de desarticular um grupo criminoso que estaria atuando para impedir que funcionários da CDHU atuassem na remoção de famílias da comunidade. O grupo estaria atuando a mando de Leonardo Monteiro Moja, irmão de Alessandra e tio de Yasmin.

    Conhecido como Léo do Moinho, ele foi preso em um apartamento em Praia Grande, no litoral paulista, em agosto de 2024 e é apontado pelo MP-SP como responsável pelo abastecimento de drogas da chamada Cracolândia, além de ser uma das lideranças da facção criminosa PCC em São Paulo.

    O grupo sob mando dele estaria atuando, ainda segundo o Ministério Público, para manter as atividades de tráfico de drogas e também para extorquir inquilinos que viviam em imóveis de Leonardo na favela e seriam contemplados pelo acordo de moradia gratuita. Alessandra estaria à frente dessas cobranças, além de prestar contas ao irmão. Já Yasmin foi vinculada ao caso por morar em uma residência de três andares na qual, no térreo, seriam armazenados produtos ilícitos.

    Estão sendo feitas demolições na favela?

    Desde as prisões, a CDHU intensificou a demolição de imóveis na favela do Moinho. Em outubro, a Justiça Federal determinou que os trabalhos fossem suspensos por dez dias, período em que deveria ser feita a retirada de entulho da comunidade, mas autorizou a retomada posteriormente.

    A Defensoria Pública da União e também a DPESP pediam que as demolições fossem feitas somente após a desocupação total da comunidade, o que não foi acatado.

    Esse era também uma demanda levantada pelos moradores desde o início do processo de reassentamento, devido ao medo de que imóveis ainda ocupados ruíssem caso paredes vizinhas fossem demolidas. No início de novembro, a CDHU derrubou parte de uma casa ainda ocupada na favela, ocasião em que uma moradora quase foi atingida pelo telhado que desabou.

    Em função das demolições, a favela tem entulho acumulado, o que fazia proliferar ratos e escorpiões entre casas ainda ocupadas. A Ponte registrou em mais de uma reportagem que a favela se assemelha ultimamente a um cenário de guerra, devido aos escombros.

    Enquanto isso, os moradores remanescentes da favela seguem mobilizados, orientados pela Associação de Moradores do Moinho. Em outubro, eles lançaram, junto de movimentos sociais, um comitê em defesa das famílias que ainda não tiveram reparação em meio ao reassentamento e das pessoas presas no local.

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