Artigo | Dez anos, quinze suspeitos, só dois condenados

    Em um Especial com três reportagens e um artigo, a Ponte rememora uma década da Chacina de Osasco e Barueri — a maior das ruas de São Paulo, com 17 mortos — e a responsabilização ainda incompleta dos criminosos e do Estado brasileiro

    Famíliares de vitimas e ativistas dos direitos humanos participam de ato em memória aos 10 anos da Chacina no último sábado (16/8), em Osasco | Foto: Daniel Arroyo / Ponte Jornalismo

    Adalberto Brito da Costa. Antonio Neves Neto. Eduardo Oliveira Santos. Fernando Luiz de Paula. Leandro Pereira Assunção. Manoel dos Santos. Thiago Marcos Damas. Tiago Teixeira de Souza. Igor Silva Oliveira. Jonas dos Santos Soares. Rafael Nunes de Oliveira. Letícia Vieira Hildebrand da Silva. Deivison Lopes Ferreira. Rodrigo Lima da Silva. Wilker Thiago Correa Osorio. Jailton Vieira da Silva. Joseval Amaral Silva. 

    Cada ponto final depois desses 17 nomes representa o fim de suas vidas. Nenhum deles voltou para casa nos últimos dez anos. Nenhum deles fez mais aniversários ou celebrou com a família. 13 de agosto de 2015 foi o último dia de suas vidas e o episódio ficou conhecido como Chacina de Osasco e Barueri, que completa uma década em 2025. 

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    Onde a gente estava em agosto de 2015? Fazendo essa reflexão de forma pessoal, lembro-me de que estava de férias, minha primeira viagem internacional sozinha, a primeira da minha família a cruzar fronteiras. Até entrar na Ponte, nunca tinha ouvido falar da Chacina, confesso. Não me lembro de comoção na imprensa ou nas redes sociais. Na minha bolha de estudante de jornalismo recém-formada, esse crime que afetou a vida de pessoas parecidas comigo nunca chegou até mim. 

    A Ponte, por outro lado, tem acompanhado cada história ao longo de praticamente toda sua existência. Os sábados de agosto em que Dona Zilda, mãe de Fernando Luiz de Paula, reúne pessoas à sua volta para o ato em memória dos que foram mortos e, depois, serve sua feijoada, são algo imutável no calendário anual da nossa cobertura. Quem quer que seja o editor, o repórter e o fotojornalista, a Ponte sempre esteve lá. Bem como acompanhamos as investigações. 

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    Vimos o então secretário da segurança pública, Alexandre de Moraes (atualmente ministro do STF) levantar a hipótese de que os ataques em Osasco e Barueri foram realizados por agentes públicos. Falou-se em “milícia armada” e as investigações posteriores levantaram o número de 15 participantes dessa chacina, pois não há outro nome para o que se passou. A Polícia Civil indiciou seis policiais militares e um guarda civil, mas o MP-SP entendeu que não havia provas suficientes, descartou três agentes. Apenas 4 foram levados ao Tribunal do Júri. Somente dois foram condenados. 

    Na entrevista exclusiva para a Ponte que publicamos essa semana, junto com outras reportagens do nosso Especial de 10 anos, dona Zilda questiona, desacreditada nessa Justiça que se arvora como defensora das leis: por que gastar dinheiro com um resultado óbvio? Se a tese do então governo estiver certa, há cerca de 13 pessoas não identificadas que fizeram parte do grupo que orquestrou os ataques. 13 funcionários públicos que podem exercer cargos de comando atualmente nas forças de segurança municipais ou estaduais. 

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    A memória, às vezes, prega peças em dona Zilda. A saudade tem essa força de tornar vivo aquele que já não está, ainda que por ínfimo momento. O depois é sempre cruel quando vem a realidade da ausência. A vida de seu filho, o único que teve, lhe foi roubada não por doença ou tragédia, mas pela intencionalidade violenta com o dedo do Estado no gatilho. Um dedo que sempre esmaga as mesmas vidas pretas nos mesmos CEPs de quebrada. 

    “Tem hora que dá vontade de largar tudo, sabe?”, confessa dona Zilda para nossa reportagem com o tom de que sabe que desistir nem sempre é opção. “Mas tem muita gente que depende de mim”. 

    Este artigo foi publicado originalmente na newsletter semanal da Ponte: clique aqui para assinar e receber textos exclusivos, reportagens da semana e mais na sua caixa de e-mail

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