Grupo que vendia vídeos de violência explícita no Telegram, candidaturas de policiais investigados e a exploração eleitoral da letalidade mostram diferentes formas de obtenção de ganhos a partir da violência policial

Nesta semana, a Ponte publicou que uma página de exaltação à Polícia Militar do Paraná cobrava para dar acesso a um grupo no Telegram, no qual eram compartilhados vídeos de pessoas mortas ou torturadas, supostamente por policiais. Cada assinante pagava R$ 20 por mês. Como havia ao menos cem pessoas no grupo, segundo revelou uma denúncia do deputado estadual Renato Freitas (PT-PR), o negócio faturava pelo menos R$ 2 mil mensais.
As pessoas pagavam para assistir a polícia violentando outras pessoas.
É difícil acreditar que esse seja um caso isolado. O grupo exposto no Paraná provavelmente integra um mercado maior, alimentado por quem transforma a morte e a violência em entretenimento. Faz tempo, afinal, que a brutalidade policial virou ativo econômico e capital político no Brasil.
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Não faltam policiais e militares que tentam converter a atuação nas forças de segurança — muitas vezes acompanhada de acusações de violência — em dinheiro e em votos. Nas eleições municipais de 2024, mais de 6 mil integrantes dessas categorias disputaram cargos eletivos, segundo levantamento publicado pela Folha de S. Paulo. O discurso costuma girar em torno da defesa da segurança pública. Mas qual projeto de segurança está sendo defendido?
Em 2022, a Ponte analisou os antecedentes de 213 policiais civis, militares, federais e penais que disputavam as eleições de São Paulo. A reportagem, assinada por Jeniffer Mendonça, mostrou que 42% deles já haviam sido alvo de ao menos um inquérito policial.
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A transformação da atividade policial em espetáculo também aparece na trajetória de um delegado da Polícia Civil que, mais tarde, foi eleito deputado federal por São Paulo. Depois de que uma vítima de sequestro foi libertada por uma equipe da Polícia Civil, ele mandou reencenar o resgate para gravar um vídeo e publicá-lo nas redes sociais. O parlamentar também foi acusado por uma ex-companheira de agressão.
Essa lógica também aparece no discurso de agentes públicos que tratam a letalidade como sinal de experiência e eficiência policial. A morte deixa de ser tratada como resultado extremo e passa a compor uma espécie de currículo profissional.
Nesse discurso, matar não é motivo de vergonha. Vergonha seria não carregar um currículo de mortes.
Do grupo do Telegram aos palanques eleitorais, existe uma lógica comum: a violência deixa de ser tratada como uma tragédia ou como um problema público e passa a ser vendida como produto, conteúdo e credencial política.
Isso se torna ainda mais grave quando seus defensores chegam ao Congresso e outros espaços de poder. Deputados não apenas fazem discursos, eles elaboram leis, aprovam orçamentos e ajudam a definir quais políticas de segurança serão adotadas no país.
Se pessoas que celebram a morte, exploram a violência ou foram investigadas por episódios violentos chegam a esses cargos justamente por causa dessa trajetória, é preciso perguntar que política de segurança elas construirão. E, sobretudo, segurança para quem?
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