‘Justiça e nada mais’: PM vai a júri 6 anos após matar jovem a chutes e impedir mãe de socorrê-lo

    Lucas Lopes foi morto na noite do Réveillon de 2019 em Sorocaba (SP). Cecília Lopes — que faleceu em abril deste ano, aos 53 anos, sem ver justiça pelo caso — tentou socorrer o filho, mas ouviu do agressor que “esse lixo vai morrer”

    Lucas Lopes foi morto em 2019, aos 23 anos, pouco mais de cinco anos antes da mãe, Cecília, também falecer | Foto: Arquivo pessoal

    O policial militar Alessandro Cardozo de Macedo será julgado por um Tribunal do Júri na próxima quinta-feira (23/10), em Sorocaba (SP), acusado de ter matado a chutes o jovem Lucas Lopes, de 23 anos, no Réveillon de 2019. Na ocasião, o réu também teria impedido a mãe da vítima, Cecília Lopes, de socorrer o filho. “Esse lixo vai morrer”, teria dito o PM à mulher — ela faleceu em abril deste ano, aos 53 anos, sem ver justiça pelo caso.

    O assassinato de Lucas ocorreu no bairro Ana Paula Eleutério, também chamado de Habiteto, onde o jovem morava com a família. Ali, ele era conhecido por trabalhar como cabeleireiro e vendedor de roupas — itens que buscava na cidade de São Paulo junto dos irmãos mais velhos, Matheus e Israel.

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    Naquele dia 31 de dezembro de 2018, Lucas estava animado e bebendo com amigos pelo bairro. Durante a tarde, participou de um churrasco na residência de um casal de vizinhos. Por volta das 20h, decidiu ir para a casa da mãe tomar um banho, mas ficou pouco tempo por lá e saiu de volta para encontrar um outro grupo de conhecidos no Habiteto, também para confraternizar.

    Às 22h, ele reapareceu então naquele primeiro imóvel, dos amigos que haviam feito o churrasco. Desta vez, o jovem chegou cambaleando, perseguido pelo sargento Alessandro. Ofegante, ele repetia: “Eu não fiz nada, eu não fiz nada”. Lucas caiu então no chão da garagem da casa, ocasião em que o policial passou a chutá-lo na cabeça e no tronco.

    Agressão diante de crianças

    As pessoas presentes se desesperaram, pedindo para que o policial parasse. Argumentaram que até crianças testemunhavam a cena. O PM não se intimidou e ordenou que os menores fossem levados para dentro da residência. Ainda acusou a vítima de ter roubado um carro, o que as testemunhas contestaram: “Ele é trabalhador, não é bandido”. O agressor mudou então a versão, dizendo agora que o jovem havia atirado pedras contra a viatura em que estava: “Ninguém mandou jogar pedra em nós”.

    Alessandro arrastou a vítima já desacordada para a calçada, segundo as testemunhas. A essa altura, estavam a postos junto dele os policiais Donisete Aparecido Sanches, que dirigia a viatura, e Cleverton Lourenço. Uma criança correu à casa da mãe de Lucas, que preparava a ceia de Réveillon, e a avisou de que o filho estava sendo agredido. Cecília e Matheus, um dos irmãos do jovem, foram então às pressas ao local, quando os policiais ainda impediam qualquer um de se aproximar.

    O agressor permaneceu com a botina pressionando o peito de Lucas. “Se você se aproximar, eu mato ele aqui mesmo”, disse Alessandro para a mãe do jovem, com uma arma apontada para a cabeça dele, conforme Cecília relatou. A mulher, ainda assim, insistia em acudir o familiar, mas era empurrada por Alessandro e também por Cleverton.

    Laudo confirmou causa da morte

    Foram chegando então ao local outras viaturas da Força Tática do 7º Batalhão de Polícia Militar do Interior (BPM/I), com PMs que também não intervinham na cena, mantendo a vítima desacordada sem socorro. Em uma delas, estavam os policiais Francisco Soares Diniz Junior e Ricardo de Almeida Ramires. Em outra das viaturas, chegaram Douglas Ferreira da Silva, Leandro Dias Batista e James Wesley de Jesus Pinto. Ainda esteve ali o hoje capitão Airtom Maciel de Oliveira, que comandava o grupo.

    Pouco depois, os PMs deixaram que Lucas fosse acudido, mas sem acionarem qualquer socorrista. Matheus e Cecília colocaram o jovem dentro de um carro da família e o levaram a uma unidade de pronto-atendimento (UPA). Do local, ele foi transferido em coma para o Hospital Regional de Sorocaba, onde veio a falecer às 13h20 do dia 1º de janeiro de 2019.

    A causa da morte foi anemia traumática interna subaguda, devido ao sangramento excessivo que Lucas teve dentro do abdômen com os chutes que recebeu do policial.

    Cecília perdeu o filho e fundou a ONG Lucas Vive, em memória dele | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    MP-SP pleiteou denúncia mais branda contra policial

    Alessandro foi o único PM denunciado pelo caso. Além dele, o soldado Cleverton também havia sido colocado na condição de investigado, mas o Ministério Público paulista (MP-SP) entendeu não haver elementos suficientes que indicassem a prática de algum crime por ele.

    Para o MP-SP, Alessandro cometeu homicídio doloso qualificado, por se valer de recurso que dificultou a defesa da vítima. A qualificadora só foi incluída na denúncia pelo promotor de Justiça Eduardo Francisco dos Santos Junior após um pedido do advogado da família de Lucas, Luan Lima, que atua no caso como assistente de acusação. Em 2 de dezembro de 2021, a Justiça pronunciou o policial nos termos denunciados pelo MP-SP — ou seja, decidiu que ele deveria ser julgado perante um corpo de jurados, o que só vai ocorrer agora devido, entre outras coisas, à dificuldade de intimar o réu.

    Leia também: Polícia Civil ignora ordem judicial há 6 meses e não investiga morte cometida por PMs em Sorocaba

    Após a pronúncia, o advogado da família voltou a insistir, a contragosto do primeiro promotor de Justiça e de um segundo, Antônio Domingues Farto Neto, para que a denúncia contra Alessandro tivesse também outras duas qualificadoras: meio cruel e motivo fútil, o que engrossaria uma eventual pena. O pedido foi endossado pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe-SP) e pelo procurador de Justiça Roberto Livianu, do MP-SP.

    No entanto, a 5ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) não admitiu a análise do recurso, por entender que não caberia à assistência de acusação manifestar inconformismo contra a denúncia caso já tivesse ocorrido a pronúncia do réu. O desembargador Geraldo Wohlers relatou o acórdão, acompanhado dos pares Maurício Henrique Guimarães Pereira e Claudia Fonseca Fanucchi.

    PM nega ter cometido crime contra Lucas

    Alessandro sempre negou ter agredido e impedido o socorro a Lucas, apesar de sete testemunhas dizerem o oposto. Ele afirma que, naquele dia 31, estava estacionado junto de outra viatura no bairro do Habiteto quando um grupo de 15 pessoas teria xingado eles e atirado pedras. Nenhum dos objetos atingiu, contudo, os carros da PM-SP, que não apresentaram qualquer dano ou marca.

    A investigação conseguiu chegar a um amigo da vítima que integrou o suposto grupo que teria jogado as pedras. Segundo ele, esse ataque alegado pelos PMs nunca existiu. E, na verdade, eles estavam em seis amigos, incluindo Lucas, confraternizando na rua em que um deles morava no Habiteto. Quando viaturas passaram pelo local, o grupo gritou “Ralf” seguidas vezes, um apelido que Lucas tinha por ter o costume de repetir esse nome para imitar um cachorro — uma brincadeira inofensiva. Em razão disso, os policiais se sentiram provocados e os perseguiram, até a maior parte dos amigos se esconder. Lucas deixou o local sozinho, quando foi então seguido por Alessandro.

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    Em seus depoimentos, Alessandro afirmou que, após o suposto ataque a pedradas, ele e Cleverton teriam tentado alcançar alguns dos agressores a pé, o que não teriam conseguido. Posteriormente, ao fazerem uma ronda de viatura pelo bairro, eles teriam se deparado com um outro grupo que estava em volta de um homem caído no chão, que seria Lucas. Segundo Alessandro, a mãe do jovem teria negado ajuda deles para socorrê-lo e dito que o filho havia feito uso de drogas e álcool.

    Ainda de acordo com o PM, não houve qualquer agressão à vítima, em aparente mal súbito, o que contraria o laudo necroscópico que confirmou a causa da morte. Alessandro disse também que só foi chamado reforço porque aquele era um bairro em que policiais eram frequentemente hostilizados. Ele apresentou na fase de pronúncia cinco colegas de farda como testemunhas de defesa — dois deles assumiram ter ouvido o réu dizer “ninguém mandou ele atirar pedra na gente”.

    A Ponte procurou o escritório Ribas & Soares, que atua em favor do réu. “A defesa do Alessandro Cardozo de Macedo vai pleitear a absolvição ao júri pela negativa de autoria”, disse o advogado Mauro Ribas. “A defesa afirma que ele não cometeu esse crime. Não há análise de legalidade ou de culpa nesse caso, porque o Macedo não o cometeu, ele não estava no local do crime. A defesa tem provas técnicas e testemunhais disso e sustentará a negativa de autoria”, completou.

    Familiares de Lucas e Cecília farão um ato na Câmara de Sorocaba nesta sexta (17/10) | Foto: Arquivo pessoal

    Filhos mantêm luta pelo irmão após morte da mãe

    Após a morte do filho, Cecília Lopes fundou a organização não-governamental (ONG) Lucas Vive. A entidade se tornou conhecida no Habiteto por promover atividades culturais e esportivas no contraturno escolar e festas em datas especiais para as crianças, além de ajudar famílias carentes com cestas básicas, fraldas, medicamentos e material escolar.

    Cecília participou de um último evento da ONG na Páscoa deste ano, uma semana antes de morrer. A entidade agora é tocada pelos filhos, que também mantêm a luta da mãe por memória e justiça no caso de Lucas. “Nós vamos para cima para ter justiça, para a minha mãe descansar em paz, porque era isso o que ela queria”, disse, à Ponte, Israel, que pretende fazer um ato pelo irmão na Câmara dos Vereadores de Sorocaba nesta sexta-feira (17/10). “Queremos justiça pelo Lucas. Nada mais do que isso.”

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    A última vez em que a Ponte esteve com Cecília foi no dia 1º de abril deste ano, quando ela participou de um desfile do tradicional bloco cívico-carnavalesco fora de época Córdão da Mentira — o evento propunha a memória e resistência de vítimas de violência de Estado.

    “Não tenho medo de morrer, porque, quando uma mãe perde um filho, ela já morreu. Mas não vou sossegar até ter justiça”, disse ela na ocasião, ao fazer um discurso junto de outros familiares de vítimas de violência policial em frente à sede da Secretaria de Segurança Pública paulista (SSP-SP).

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