Da Redação | Mulheres seguem no alvo da polícia e da violência no Brasil

Fevereiro é o mês com mais mortes de mulheres pela polícia em SP em ao menos 14 anos; casos de Thawanna e da PM Gisele Alves expõem falhas do Estado dentro e fora das corporações

Ilustração de mulher com marcas de violência cercada por sombras, representando o feminicídio e a violência contra mulheres
Ilustração: Juniã

Todos os meses, a Ponte faz uma análise sobre os números da letalidade policial divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP). Geralmente, sobretudo no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), falamos sobre o aumento dos números, os locais onde se deram as mortes, a idade e a raça dessas pessoas, homens em sua grande maioria. Mas os números de fevereiro, chamaram nossa atenção por um aspecto diferente. 

O segundo mês de 2026 foi o mês com mais mortes de mulheres pela PM-SP em quase 15 anos. Das três mulheres mortas, duas, pelo menos, estariam supostamente em surto psicótico. E, mais uma vez, a PM demonstrou como não é a instituição adequada para lidar com esse tipo de situação, como já mostramos tantas vezes aqui na Ponte. Mesmo com outras ferramentas não letais — spray de pimenta, por exemplo — para contornar situações como essas, agentes seguem confiando apenas em armas de fogo, usando-as de forma letal. 

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Quando os dados oficiais de abril saírem, o caso da morte de Thawanna da Silva Salmázio deverá estar nesta conta. A mãe de cinco filhos foi morta pela PM Yasmin Cursino Ferreira — que está há três meses na corporação — depois de uma discussão. A versão oficial sustenta que a policial reagiu a suposta agressão de Thawanna, mas os relatos de familiares e testemunhas, bem como vídeos e imagens da câmera corporal do policial que acompanhava Yasmin, desmontam essa narrativa. 

Nem a farda protege

Ainda em fevereiro, o país assistiu à repercussão de mais um caso de uma agente de força de segurança sendo morta por seu parceiro. A PM Gisele Alves Santana se somou às estatísticas escandalosas de feminicídio em São Paulo. Ter porte de arma e integrar o sistema policial não a salvou de seu fim. Ela seguia sendo mulher e, portanto, alvo fácil do machismo. Seu possível algoz e marido é o também PM Geraldo Leite Rosa Neto, que foi recebido com abraços no presídio militar Romão Gomes.

Em março, a comandante da GCM de Vitória (RS), Dayse Barbosa, também se tornou vítima pelas mãos de seu namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, que tirou a própria vida na sequência. 

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A morte de agentes femininas das forças de segurança não é uma tendência do momento. No ano passado, contamos a história da PM Deusiane Pinheiro, encontrada morta no quartel em 2015. A versão oficial apontou morte por suicídio. O Ministério Público do Amazonas contesta essa versão, apontando o também policial Elson Santos Brito como autor do disparo. Elson e Deusiane, de acordo com o MP-AM, tinham um  “relacionamento amoroso conturbado”.

No ano passado, a gente mostrou que a violência doméstica precede maior parte dos assassinatos seguidos de suicídio por policiais. Em 2017, a Ponte publicou um especial denunciando assédio na PM. Os dados apurados à época apontavam que, no Brasil, 40% das mulheres que atuam nas instituições policiais brasileiras já sofreram assédio. No Dia da Mulher, a ex-repórter da Ponte Jeniffer Mendonça publicou uma matéria no UOL na qual conversou com vítimas de violência de gênero que relataram as dificuldades de denunciar colegas. 

Em 2023, mesmo com o aumento dos casos de feminicídios, o governador Tarcísio chegou a cortar R$ 5,3 milhões do orçamento das Delegacias da Mulher 24 horas no estado de São Paulo,  unidades importantes para garantir proteção e justiça para vítimas de violência de gênero. E se dependesse do mesmo Tarcísio nem haveria câmeras corporais para registrar as violações cometidas pelos policiais como no caso de Thawanna.

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Quantas Thawannas morreram acusadas de terem reagido e não houve prova ou sequer uma investigação para mostrar a verdade? E como o Estado vai combater o feminicídio se suas próprias agentes são vítimas? Se nem as agentes de segurança, nem as mulheres que integram o sistema de Justiça estão seguras, quem dirá quem mora nas periferias, nos quilombos, nas aldeias indígenas desse país? 

Civil ou militar, ser mulher no Brasil é viver em risco onde quer que se esteja. E essa não é uma frase fácil de se escrever como uma mulher negra. também não seria para uma mulher trans ou periférica. A sensação é cada vez mais de estar no limiar entre vida e morte com uma plateia masculina assistindo enquanto se afirma “macho provedor”.

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