Artigo | Por que episódios de surto psicótico viram caso de polícia no Brasil

Militarização crescente da vida no país faz com que casos de mortes de pessoas em surto pela PM sejam cada vez mais crescentes — e expõem a escolha do Estado pela força em vez do cuidado

Ilustração em tom crítico mostra vários policiais fardados sobrepostos, com braços multiplicados segurando pistolas e fuzis em diferentes direções, formando um corpo coletivo exageradamente armado sobre fundo azul e laranja.
Ilustração: Junião

Na semana passada publicamos uma reportagem especial sobre casos de letalidade policial durante a contenção de pessoas em surto. Essa reportagem nasceu de uma pergunta incômoda: por que, em situações de surto, a primeira reação ainda é chamar a PM? Existe um treinamento para esses policiais? O que dizem as entidades de psicologia sobre isso? 

Ao longo de alguns meses, a repórter Catarina Duarte conduziu uma apuração que respondeu todas as perguntas que tínhamos. O que ficou claro é que a participação da PM na contenção de pessoas em episódios de surto psicótico é mais um exemplo da militarização da vida — tema de que temos falado bastante ao longo de 2025. O Conselho Federal de Psicologia foi claro: a força policial não deveria aparecer em situações de crise psiquiátrica.

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E qual seria o protocolo ideal? A Ponte questionou. “O atendimento adequado, afirma o conselho, deve priorizar equipes de saúde como Samu, unidades de pronto atendimento ou Caps III, com foco em desescalonamento verbal, avaliação clínica e encaminhamento para serviços comunitários”. A Rede de Atenção Psicossocial está enfraquecida e isso cria uma lacuna justamente onde o cuidado deveria estar.

“Deslocar para a segurança pública uma tarefa que deveria ser da saúde configura desvio de função”, afirmou a nota do CFP. Um desvio de função que se repete na educação, com as escolas cívico-militares; na habitação, com a atuação da PM-SP na Favela do Moinho; e na saúde, quando a violência policial é usada como “resolução” da questão das drogas.

Mais policiamento, menos políticas públicas

Quando quer se eximir de sua responsabilidade constitucional de pensar e executar políticas públicas, estruturar redes de atenção e apoio e financiar projetos, é para a força bruta e a necropolítica que o Estado apela. É aí que casos de violência, como os de Herick Cristian da Silva Vargas, Ernesto Schmitz Neto, Denner Wesley Batista dos Santos tornam-se manchete ao terminar em morte.

De acordo com o Dossiê Orçamentário, estudo produzido pelo Instituto Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJR), nos orçamentos de 2025, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo priorizaram atividades de policiamento em detrimento a políticas públicas voltadas ao apoio à vida plena. Em São Paulo, apenas para citar um exemplo da reportagem de Paulo Batistella sobre o assunto, o orçamento para a Secretaria de Segurança Pública (R$ 20 bilhões) “está acima do que receberam, somadas, as pastas de desenvolvimento econômico (R$ 376 milhões), cultura (R$ 1,4 bilhão), esportes (R$ 419 mi), habitação (R$ 3 bi), agricultura (R$ 1 bi), turismo (R$ 734 mi), políticas para mulher (R$ 36 mi) e para as pessoas com deficiência (R$ 72 mi), meio ambiente e infraestrutura (R$ 10,9 bi)”.

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Não apenas nos apegamos à PM, mas financiamos seu uso em assuntos que não lhe dizem respeito, em detrimento a outros setores que poderiam levar atenção, cuidado e oportunidades de vida a todas as pessoas. 

Se a polícia é a materialização do monopólio da força do Estado, toda embasada em discurso de confronto bélico, é essa lógica que escolhemos levar à saúde, à educação, à habitação. Ao deixar de participar de decisões do orçamento público e ao acionar continuamente uma estrutura que é regida pelo signo da morte, mantemos tudo como está.

Como mostramos no meio do ano, os Fóruns Populares de Segurança Pública espalhados pelo país têm questionado essa lógica e buscado deslocar o financiamento das polícias para outras políticas públicas. Nesta newsletter, te convidamos a conhecer mais sobre essas organizações e movimentos sociais no especial A segurança é pública.

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