Região metropolitana do Rio teve uma megachacina policial, com oito ou mais pessoas mortas, a cada cinco meses e meio no governo Cláudio Castro (PL). Especialista diz que governador incentiva ações letais ao legitimá-las

O Massacre do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, em que ao menos 121 pessoas foram mortas na terça-feira (28/10), incluindo quatro policiais, repetiu o que tem sido um padrão das forças de segurança no governo Cláudio Castro (PL). Na gestão dele, aumentou o número de operações policiais que terminaram como megachacinas. Ocorreram ainda quatro das cinco maiores matanças da história do estado — o que inclui essa última, uma das maiores já registradas no Brasil.
As megachacinas são os episódios com oito ou mais pessoas mortas, conforme define o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF). Já as chacinas são os casos com ao menos três óbitos.
Leia também: Quem são os secretários de Cláudio Castro à frente do Massacre do Alemão e da Penha
O Geni tem monitorado as operações policiais ocorridas na região metropolitana do Rio, o que consideram ser as incursões armadas das polícias em bairros sob controle territorial armado — seja de facções criminosas de tráfico de drogas ou de milícias, os grupos paramilitares que exploram moradores ao monopolizar serviços e o mercado imobiliário. Sob Castro, foram 11 dessas megachacinas.
Ou seja, ocorreu uma a cada cinco meses e meio. Antes do atual governador, algo parecido ocorria a cada oito meses, desde 2007, segundo o levantamento do Geni, cedido à Ponte.
Além dessa matança recente, estão entre as maiores megachacinas do estado outras três da gestão Castro: uma de julho de 2022, ocorrida no Complexo do Alemão, com 17 mortes; outra na Penha, em maio daquele mesmo ano, com 23 óbitos; e a do Jacarezinho, em maio de 2021, com 28 vítimas fatais.
Política de mortes teve disparada com Witzel
Castro assumiu o governo ao final de agosto de 2020, após ser eleito como vice do então governador Wilson Wiltzel (filiado ao PSC à época). O titular do cargo foi, a princípio, afastado por suspeita de integrar um esquema de corrupção e, depois, retirado em definitivo ao sofrer impeachment.
Ainda com Witzel, que incentivava policiais a “atirar na cabecinha”, a letalidade das operações já havia disparado. Foram quatro megachacinas em apenas um ano e oito meses com o antigo governador. A média era de 45 mortes em operações a cada mês — antes dele, nos governos de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (ambos eleitos pelo MDB), foram 16 megachacinas em 12 anos, com cerca de 31 mortos em operações a cada mês.
Também com Witzel, o Rio de Janeiro teve um recorde de letalidade policial, em 2019, ocasião em que 1.814 pessoas foram mortas pelas polícias. Já com Castro, o número total de assassinatos cometidos por policiais entrou em uma tendência de queda, mas, ainda assim, segue em um patamar muito mais alto do que o anterior a ele e a Witzel.
De 2000 a 2018, houve, em média, 884 mortes pelas polícias ao ano, conforme a Ponte identificou ao compilar dados de todos os anuários já publicados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Já nos últimos quatro anos, com Castro de governador, essa média disparou para 1.065 óbitos.

Governador incentiva chacinas ao legitimá-las, diz pesquisadora
Embora pareça contraditório a letalidade recuar enquanto o governo Castro protagoniza as maiores chacinas do estado, a cientista social Carolina Grillo, coordenadora do Geni, diz que há explicação para isso. A queda do número total de mortes só ocorreu, segundo ela, em função das medidas de controle às polícias impostas no âmbito da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, conhecida como “ADPF das Favelas”, julgada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A política de segurança pública idealizada pelo governador, contrário à ADPF, só se manifestou, de fato, com as megachacinas. “O Executivo estadual incentivou as polícias nos últimos anos a praticar ações letais, na medida em que respaldou as operações que tiveram um alto número de mortes. O governador sempre legitimou essas ações antes mesmo de qualquer investigação. Isso é um incentivo”, diz Carolina.
Leia também: Maioria dos estados que reduziram crimes também teve queda das mortes por polícias
“O Cláudio Castro tem tido retornos eleitorais com isso, inclusive conseguiu se reeleger após ter ocorrido a chacina mais letal do Rio de Janeiro [a do Jacarezinho, agora superada pela do Alemão e da Penha]. Ele se reelegeu sem se solidarizar com as famílias das vítimas em momento algum, sem criticar a atuação policial.” Agora diante da nova megachacina, Castro manteve a mesma postura.
“Foi um sucesso, tirando a vida dos policiais [que foi perdida]. [Sobre] o resto, a operação foi um sucesso”, disse o governador em uma coletiva de imprensa na quarta (29/10), dia em que moradores enfileiraram em uma rua na Penha corpos que haviam sido abandonados em uma área de mata da região.
A pesquisadora ainda aponta a responsabilidade da imprensa em garantir capital político a Castro com as operações — diante da mais recente megachacina, jornais trataram as vítimas como bandidos mortos em confronto antes mesmo delas serem identificadas e de ser esclarecida a dinâmica do ocorrido.
“As pesquisas de opinião colocam a segurança pública como a maior preocupação da população, mas a opinião pública está muito mal informada sobre esse tema. Diante disso, alguns políticos se aproveitam com discursos alinhados ao populismo penal e oferecem soluções fáceis para problemas complexos.”
“Eles vendem a ideia de endurecimento penal, de um combate mais duro à criminalidade, de uso da força e do extermínio como um método de combate ao crime. E isso tem ganho apoio popular, o que é lamentável, porque a gente sabe que, há décadas, se prende e se mata cada vez mais, e isso não traz resultados eficientes, não traz maior segurança para a população”, diz. Da virada do milênio ao ano passado, o Rio de Janeiro teve ao menos 24.120 pessoas mortas pelas polícias.

Operações são ineficientes e poupam áreas de milícias, mostram estudos
Carolina diz que uma atuação omissa do Judiciário e do Ministério Público, órgão ao qual cabe o controle externo das polícias, também sustenta a recorrência desses massacres. Um estudo do Geni mostrou, em 2023, que apenas duas das 27 operações que resultaram em megachacinas foram denunciadas pelo MPRJ à Justiça — e não passaram da fase de julgamento. Outras duas foram arquivadas.
“O Estado brasileiro já foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por causa das chacinas que ocorreram na favela Nova Brasília [no Rio de Janeiro, com 26 mortes] em 1994 e 1995. E depois, no âmbito da Justiça brasileira, ninguém foi responsabilizado. Então, existe uma impunidade sistemática, o Judiciário garantiu uma imunidade a diversas chacinas ao longo das décadas.”
Veja ainda: Homens negros jovens são vítimas mais comuns de violência no Rio
O Geni também já publicou um estudo segundo o qual, até 2020, quase 85% das operações policiais no Rio de Janeiro foram pouco eficientes, ineficientes ou desastrosas. Como critérios para avaliar isso, os pesquisadores levaram em conta o impacto das ações, as razões para que fossem deflagradas e se houve apreensões.
No recente massacre no Alemão e na Penha, houve mais mortes do que fuzis apreendidos e o principal alvo da operação, o traficante Edgar Alves de Andrade, não foi preso. Além disso, das 99 pessoas mortas já identificadas, nenhuma delas era alvo das ordens de prisão que fundamentaram a operação — segundo o governo estadual, 42 tinham mandados em aberto por outros casos.
Um outro estudo do grupo da UFF, desta vez feito em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, ainda identificou que, entre os tiroteios com participação das polícias na região metropolitana do Rio, 40,2% deles ocorreram em áreas de tráfico. Já nos bairros sob controle de milícias, foram apenas 4,3% — ou seja, a repressão do Estado nessas áreas é praticamente dez vezes menor.
As quatro maiores megachacinas do governo Castro ocorreram em regiões sob controle do Comando Vermelho (CV), que, nos últimos anos, tem expandido sua influência na capital fluminense, inclusive sobre áreas que até então controladas pelas milícias. “A gente costuma se referir a essa menor frequência de operações em áreas de milícias como um favorecimento político a esses grupos”, diz Carolina.
O que dizem as autoridades
A Ponte procurou a Secretaria da Segurança Pública fluminense (SESP), chefiada por Victor Santos, mas não obteve retorno até esta publicação. A pasta tem a função de coordenar as ações da Polícia Militar e da Polícia Civil, que também têm status de secretarias — são chefiadas, respectivamente, pelo coronel Marcelo de Menezes e pelo delegado Felipe Curi.
A reportagem ainda tenta também uma manifestação do Ministério Público. Se houver, o texto será atualizado. Em um comunicado anterior, especificamente sobre a megachacina recente, o órgão afirmou que o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp) acompanhava a ação para “assegurar o cumprimento das diretrizes fixadas pelo STF na ADPF 635”.
Correção
- O governo Castro teve, em média, uma megachacina a cada quase cinco meses e meio, e não a cada quatro meses e meio, como afirmava erroneamente versão anterior desta reportagem. A informação foi corrigida às 8h de 1/11/25.