PM acusado de incitar colegas na Chacina do Curió começa a ser julgado em Fortaleza

    Soldado que morava no Curió teria mentido a colegas de farda, após matar uma pessoa no bairro, que policiais eram expulsos da comunidade por conta da profissão, afirma o MP-CE. Júri desta segunda (22/9) é o penúltimo da matança

    Familiares de vítimas da chacina do Curió fizeram vigília em júri anterior | Foto: Jeny Sousa/Mandato de Léo Suricate/Divulgação

    A Justiça do Ceará realiza, a partir das 9h desta segunda-feira (22/9), o penúltimo júri da Chacina do Curió — caso de 2015 em que 11 pessoas foram mortas em meio a ataques indiscriminados de policiais militares na periferia de Fortaleza. Estarão agora no banco dos réus o soldado Marcílio Costa de Andrade e o cabo Luciano Breno Freitas Martiniano, ambos ainda integrantes da Polícia Militar cearense (PM-CE).

    Este deveria ser o último julgamento da chacina. No entanto, um terceiro réu que seria submetido aos jurados, o soldado PM Eliézio Ferreira Maia Júnior, teve sua participação suspensa ao apresentar um exame de sanidade mental à Justiça. Assim, ele deverá ser julgado em outra data.

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    A Chacina do Curió ocorreu entre a noite do dia 11 e a madrugada de 12 de novembro de 2015, em um intervalo de seis horas, em meio a uma série de ataques indiscriminados em bairros da Grande Messejana, incluindo o Curió, em Fortaleza. A matança se deu por vingança à morte do PM Valtemberg Chaves Serpa em um caso de latrocínio — um dia antes, ele havia sido morto ao tentar intervir em uma tentativa de assalto contra a esposa no bairro Lagoa Redonda, também na região.

    Marcílio, agora prestes a ser julgado, é acusado pelo Ministério Público cearense (MP-CE) de ter indicado locais dos ataques e de ter protagonizado um episódio anterior à morte de Valtemberg que também incitou colegas a participarem da chacina.

    PM é acusado de matar uma pessoa no Curió antes de chacina

    Em 25 de outubro de 2015, Marcílio se envolveu em uma briga com um outro morador do Curió, bairro onde também vivia. Esse homem foi à casa de uma irmã do PM, também moradora da comunidade, para contestá-la sobre ela ter espalhado entre vizinhos que ele estaria sofrendo um traição conjugal.

    Na ocasião, Marcílio teria agredido o homem, ao interceder pela irmã, e encostado uma arma de fogo na boca dele. O morador decidiu então ir embora e, no caminho para casa, encontrou uma viatura da Polícia Militar, quando pediu por socorro. Os policiais alegaram que não teriam razão para ir ao local da ocorrência sem que ele estivesse lá e o orientaram a acionar o 190 ou buscar uma delegacia.

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    O morador ameaçado atendeu então a orientação e ligou à Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops) para pedir nova ajuda da PM-CE. Foi quando vieram confrontá-lo dois homens em uma motocicleta — segundo o MP-CE, eles seriam envolvidos com o tráfico de drogas na região e teriam cobrado satisfações do homem por ter chamado atenção de policiais para o local. Logo na sequência, apareceram de carro no mesmo local Marcílio e o genro da irmã dele, também para confrontar o morador.

    Ainda de dentro do veículo, Marcílio passou a atirar contra o homem que havia ameaçado, segundo a própria vítima relatou à Justiça. Esse morador conseguiu fugir, escapando de disparos também feitos pelo genro da irmã do PM. Um dos dois homens que haviam chegado de motocicleta à cena, no entanto, acabou atingido e morreu. O tiro que o matou saiu da arma que estava com Marcílio.

    Questão pessoal de Marcílio também teria instigado vingança

    Familiares do homem morto, que tinha o apelido de Neném, passaram então a ameaçar o PM, a ponto da irmã dele se sentir obrigada a mudar de bairro. A mudança, conforme relataram testemunhas, foi feita por homens encapuzados que utilizaram viaturas da PM-CE, em 29 de outubro de 2015. Eles também passaram aquele dia intimidando moradores indiscriminadamente, que chegaram a acionar o Ciops para relatar que o Curió estava parecendo “os tempos do Lampião”. Ainda naquela data, o pai de Neném foi assassinado na comunidade.

    O MP-CE afirma que Marcílio escondeu dos colegas de farda que o episódio se tratou de uma questão pessoal e fingiu ser algo de natureza institucional, como se nenhum policial ou familiar de PMs pudessem morar no Curió. Isso teria, ainda de acordo com a acusação, insuflado os demais participantes da chacina a se vingar da comunidade, tendo sido a morte de Valtemberg o estopim que faltava.

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    No caso da morte de Neném, a Justiça decidiu, em 13 de abril de 2020, pronunciar Marcílio, ou seja, determinar que ele seja submetido a um Tribunal do Júri. O julgamento, no entanto, ainda não ocorreu. A defesa do policial já interpôs diversos recursos contra a decisão em diferentes instâncias.

    Na ocasião da Chacina do Curió, testemunhas relataram que Marcílio teria sido visto sem capuz, diferentemente dos demais agressores, indicando locais a serem atacados. Uma perícia da Polícia Federal ainda identificou que os disparos que mataram uma das vítimas — Marcelo da Silva Mendes, de 17 anos — percorreu o mesmo cano da arma usada no assassinato de Neném.

    A Ponte procurou a defesa de Marcílio Costa de Andrade por mensagens via WhatsApp e e-mail, mas ainda não obteve retorno. Se houver, o texto será atualizado.

    Além de Marcelo, também foram mortos na chacina Álef Souza Cavalcante, aos 17 anos; Antônio Alisson Inácio Cardoso, 17; Francisco Enildo Pereira Chagas, 41; Jandson Alexandre de Sousa, 19; Jardel Lima dos Santos, 17; José Gilvan Pinto Barbosa, 41; Patrício João Pinho Leite, 16; Pedro Alcântara Barroso, 18; Renayson Girão da Silva, 17; e Valmir Ferreira da Conceição, 37.

    Chacina já teve 27 réus julgados, dos quais seis foram condenados

    Luciano, o outro PM a ser julgado junto com Marcílio, é acusado pelo MP-CE de também ter participado da chacina. Imagens de câmeras de segurança mostram um carro que pertencia a ele circulando por locais próximos aos assassinatos naquela madrugada. O veículo tinha as placas parcialmente cobertas.

    À Ponte, a defesa de Luciano afirmou que ele é inocente. “Temos provas disso e será absolvido”, disse o advogado Walmir Medeiros em resposta aos questionamentos da reportagem.

    O carro de Eliézio, o PM que conseguiu suspender seu julgamento, também foi filmado por câmeras naquela ocasião. Ele é acusado de integrar um comboio de PMs que matou cinco das vítimas da chacina.

    Além das vítimas fatais, sem envolvimento com o latrocínio contra Valtermberg, a Chacina do Curió teve quatro sobreviventes de tortura e três pessoas que sofreram tentativa de homicídio. O MP-CE denunciou 45 policiais, entre os quais 44 se tornaram réus. A Justiça cearense pronunciou 34 deles, para que fossem levados a júri popular, e impronunciou os demais. Entre os pronunciados, um deles morreu e outros três tiveram o caso remetido à Justiça Militar. Já foram julgados até aqui 27 réus, entre os quais seis foram condenados pelo júri e os outros 21 foram absolvidos.

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