Matheus Sposito Borges, que estava de folga com outros cinco PMs, matou Victor Matheus da Fonseca Araújo, de 26 anos, e baleou sua esposa em um acesso da Rodovia dos Imigrantes. Os dois viajavam com um casal de amigos brancos
Na noite do dia 11 de novembro de 2023, Victor Matheus da Fonseca Araújo, de 26 anos, se preparava para passear no litoral de São Paulo. O jovem e a esposa estavam em sua moto, acompanhados por um casal de amigos, também sobre duas rodas. Eles passaram em uma adega, compraram bebidas para consumir no litoral e seguiram para a Rodovia dos Imigrantes. Em um dos acessos, encostaram as motos para colocar blusas de frio. Foi dali, na beira da pista, que viram dois carros pararem e três homens desembarcarem. Todos colocaram as mãos para o alto. Sem aviso prévio, tiros foram disparados contra Victor e sua esposa. Ele morreu na hora.
No carro, estava o soldado Matheus Sposito Borges, 23, e outros cinco membros da Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP). Todos os militares estavam de folga e a caminho de uma festa. Victor foi alvejado duas vezes — uma no peito, outra na cabeça. Julianna Maria da Silva, à época com 28 anos, foi atingida por um tiro na virilha.
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O policial de folga alega ter visto as duas motocicletas e considerado que Victor e Julianna estavam assaltando o outro casal. Além disso, diz ter achado que o piloto da moto carregava uma arma. Na versão do PM, uma ordem de parada teria sido dada e desrespeitada por Victor — motivo pelo qual o soldado teria atirado. Os presentes contrariam a versão.
À Ponte, Julianna contou que não houve qualquer ordem de parada ou identificação por parte dos policiais, e que Matheus disparou logo após desembarcar do veículo. Depois de atirar, já com Victor e Julianna no chão, os policiais teriam ido até o corpo dela medir sua pulsação. Só neste momento, Julianna conta, teria havido alguma identificação por parte deles. Os casais achavam, ela diz, estarem eles sendo vítimas de um assalto.
Em outubro de 2024, o réu foi pronunciado — isto é, levado a júri popular —, pelos crimes de homicídio com emprego de meio insidioso ou cruel e mediante recurso que dificulte ou torne impossível a defesa, e tentativa de homicídio, nos mesmos termos. As penas podem ultrapassar 30 anos de reclusão. Borges será julgado pela 1ª Vara do Júri do Tribunal de Justiça de São Paulo nesta quinta-feira (4/12).
‘A gente tava parado, com a mão levantada’
Imagens de uma câmera de segurança na beira da rodovia, obtidas pela Ponte, mostram a ação de Borges e seus colegas de farda, e corroboram a versão de Julianna. No registro, dois carros chegam ao trevo de acesso à rodovia onde os amigos estavam parados em suas motos. Do primeiro veículo, um homem desce do banco de trás com a arma na mão, se esconde e a aponta em direção ao grupo.
Do outro lado do carro, descem mais dois homens, também apontando armas para Victor, sua esposa e amigos. As imagens não permitem identificar quem dispara, mas registram, neste momento, que Victor é atingido e cai com a moto. Do segundo veículo, descem após os disparos apenas um homem e uma mulher com roupa de festa. As imagens se encerram com os homens armados, já sem apontar para o grupo, caminhando calmamente até as motos.
Ao remontar o ocorrido, Julianna reforça que os casais não fizeram qualquer movimento suspeito, se rendendo ao ver pessoas armadas, e que nada lhes foi anunciado. “Foi quando eles começaram a atirar. Sem falar nada, sem perguntar nada. Só atiraram”, ela conta. Cinco disparos foram feitos por Borges, todos em direção a Julianna e Victor. Questionada sobre o porquê de terem sido os alvejados, Julianna apontou o que as imagens da câmera de segurança não mostram: “Porque a gente é preto e nosso casal de amigos era branco. Por isso. Não tem outra explicação. A gente não fez nada, não reagiu. A gente tava parado, com a mão levantada”, conta, às lágrimas.
O caso começou a ser investigado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) como homicídio consumado e tentativa de homicídio. Todos os integrantes dos veículos tiveram suas armas apreendidas para averiguação, e Matheus Sposito Borges foi preso em flagrante e levado ao presídio Romão Gomes, da Polícia Militar.
Dois dias depois, a prisão do policial militar foi convertida em preventiva. Ele ficou no presídio até agosto de 2024, quando a terceira câmara de direito criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) lhe concedeu um habeas corpus, determinando, ao invés da detenção, o comparecimento bimestral em juízo, a proibição de viajar e o recolhimento domiciliar no período noturno.
‘Eu lembro dele todo dia. Todo dia eu choro’
Joziani de Fátima Flores da Fonseca, de 50 anos, começou a receber ligações pelo Instagram, meio pouco usual de entrar em contato, e só atendeu porque seu filho e nora tinham saído e algo poderia ter acontecido. Eram os amigos do casal. A mãe de Victor acionou outros familiares, que foram até o local — partindo tanto de São Paulo quanto do litoral. Ela estava a caminho quando foi avisada, também por telefone, que seu filho tinha morrido.
Julianna não estava mais lá. A jovem, que não sabia da morte do marido, foi resgatada pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) e levada ao Hospital Municipal Arthur Ribeiro de Saboya, no Jabaquara. Lá, passou por uma cirurgia de oito horas e ficou cinco dias internada. Quando saiu, Victor já havia sido sepultado.
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O tiro que atingiu Julianna ficou a três centímetros de uma artéria, e a jovem passou três meses se recuperando em casa, impossibilitada de retornar ao trabalho. Há dois anos, ela também não sabe o que é ter a vida normal que levava antes, com seu esposo. “Quando tive alta, minha sogra e meu sogro foram me buscar… quando o portão abriu, que eu vi minha filha, a primeira coisa que ela perguntou foi ‘e meu pai, mãe?’, e eu não sabia o que falar para ela”, conta. O casal tinha uma filha de três anos à época.
“É difícil ter uma pessoa do seu lado e assim, do dia pra noite, aquela pessoa não tá mais com você”, desabafa. A sensação de falta é compartilhada pela mãe do rapaz, Joziani, que hoje faz acompanhamento psiquiátrico para lidar com a tragédia. “Tudo o que eu faço, eu lembro dele. Se dou um sorriso, na hora já lembro dele. Eu lembro dele todo dia. Todo dia eu choro. É a mesma coisa que se tivessem tirado um braço meu”, relata à Ponte.
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Estudante de administração, Victor deu um tempo na faculdade para se dedicar à esposa e à filha e trabalhava como motoboy. Mãe e esposa relembram a alegria do jovem, que estava sempre cercado de amigos. “O Victor era uma pessoa muito alegre. Ele saía, se divertia, sabia entrar e sair dos lugares, era muito trabalhador, ajudava a gente em casa”, conta a mãe. Ele deixa também dois irmãos.
Joziani e Julianna participarão do julgamento que decidirá se Borges pagará ou não pela morte de Victor. “É um luto permanente, uma ferida que não cicatriza”, diz a mãe, que afirma acreditar que a Justiça será feita. “A justiça vai ser feita, eu tenho fé em Deus. Tem que ter justiça, né? Eu quero justiça, porque se não tiver justiça, eu não quero enterrar meu filho de novo”.