R$ 349,9 milhões e 28 vidas: estudo revela impacto financeiro e social da Operação Escudo

Relatório do Instituto Vladimir Herzog soma os gastos públicos da primeira fase da operação, na Baixada Santista, e calcula os impactos emocionais e financeiros sobre as famílias das vítimas — em maioria, homens jovens e negros

Policiais em patrulhamento no Guarujá durante Operação Escudo, em 2023 | Foto: Agnes Sofia Guimarães/Ponte Jornalismo

Dos 26 anos de vida, Tainara passou quase metade ao lado de José Marcelo. Os dois se conheceram quando ela tinha 14 anos e, juntos, tiveram três filhos. Construíram uma vida simples, mas cheia de sonhos — como conhecer a estância turística de Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira (SP). A viagem. porém, era sempre adiada diante de necessidades financeiras mais urgentes.

Em 11 de fevereiro de 2024, Marcelo foi assassinado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PMESP) durante a Operação Escudo. Segundo a família, ele foi torturado e ficou irreconhecível. Com o marido, também morreu uma parte dos sonhos de Tainara.

Marineide, mãe de José Marcelo e sogra de Tainara, havia sido baleada na perna dias antes, dentro de casa, durante a ação policial. Dos seus 56 anos, viveu 30 na Baixada Santista, território em que foi avó e também vítima: uma bala disparada pela PM lhe cortou a pele; outra lhe arrancou um dos três filhos.

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Os relatos da violência sistêmica vivenciada por Tainara e Marineide integram o relatório “Operações Escudo e Verão – Diagnóstico do avanço da política de extermínio promovida pelas forças de segurança do Estado de São Paulo e os rastros de dor, impunidade e resistência”, produzido pelo Instituto Vladimir Herzog e publicado na última segunda-feira (27/7). 

Em uma estimativa inédita, o estudo buscou mapear os impactos sociais, psicológicos e econômicos das Operações Escudo e Verão — consideradas como as ações policiais mais letais desde o Massacre do Carandiru e os Crimes de Maio, com 84 civis e três policiais mortos — mas também seu impacto aos cofres públicos.

O relatório estimou em R$ 349,9 milhões o custo total da primeira fase da Operação Escudo, realizada durante 40 dias na Baixada Santista. O valor, reajustado para abril de 2025, inclui não apenas os gastos públicos diretamente associados à operação, como a mobilização policial, as perícias, a atuação do sistema de Justiça e o encarceramento das pessoas presas, mas também as perdas econômicas provocadas pelas mortes e os prejuízos impostos às famílias das vítimas.

Operação gerou custo estimado em R$ 349,9 milhões

Para fundamentar a análise dos custos da Operação Escudo para os cofres públicos, as pesquisadoras Isabela Cristina Alves de Araújo e Ludmila Ribeiro consultaram dados do Portal da Transparência, fizeram pedidos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) e recorreram a metodologias de cálculo para os valores que não estavam disponíveis.

Segundo o relatório, a mobilização da Polícia Militar durante os 40 dias consumiu mais de R$ 91 milhões, o equivalente a cerca de 1% de todo o orçamento anual da corporação em 2023. As perícias realizadas pela Polícia Técnico-Científica representaram outros R$ 28,3 milhões.

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O estudo estima ainda que o sistema de segurança pública e de Justiça criminal mobilizou aproximadamente R$ 159,4 milhões para prender e processar as 958 pessoas detidas durante a operação. Em média, cada prisão custou R$ 166,4 mil.

Além dos gastos públicos diretos, as pesquisadoras calcularam as perdas econômicas decorrentes das 28 mortes registradas na Operação Escudo. O chamado “custo do capital humano” estima quanto a sociedade deixa de produzir quando uma vida é interrompida precocemente. Segundo o relatório, cada pessoa morta representou uma perda média de R$ 823,9 mil em potencial produtivo, totalizando mais de R$ 23 milhões.

O cálculo também considera os prejuízos suportados pelas famílias, muitas das quais perderam seus principais provedores. Sem apoio estatal para os sepultamentos, moradores organizaram “vaquinhas” para pagar as despesas funerárias estimadas em R$ 4,3 mil por vítima.

Somados esses valores e os outros impactos analisados pelo estudo, o custo total da primeira fase da Operação Escudo foi estimado em R$ 349,9 milhões, em valores corrigidos para abril de 2025.

A lógica por trás das “operações vingança”

Deflagrada em 28 de julho de 2023, como resposta imediata à morte do policial Patrick Bastos Reis, das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), a Operação Escudo teve sua primeira fase encerrada em 5 de setembro de 2023, com 28 mortes registradas.

Já a fase II, oficialmente chamada de “Operação Verão” pelo governo, começou em 26 de janeiro de 2024, após a morte do policial militar Marcelo Augusto da Silva, e seguiu a mesma lógica letal de atuação. A operação terminou em abril do mesmo ano com 56 mortes. 

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Segundo o relatório, a maioria das vítimas fatais era formada por homens (98%), negros (82%) e com idade média de 20 anos. Entre as vítimas, havia ainda sete adolescentes de 15 a 17 anos. Elas apresentavam ferimentos por arma de fogo nas costas, no peito e no abdômen, compatíveis com contextos de execuções sumárias e que indicariam a intencionalidade letal dos disparos.

As características observadas nas mortes integram o histórico das chamadas “operações vingança”: ações militares marcadas pela retaliação coletiva e pela suspensão informal de garantias legais em resposta à morte de agentes.

Sob a justificativa de responsabilizar os culpados pela morte dos policiais, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou que a operação tinha um propósito legítimo, mas, desconsiderando “as execuções sumárias, torturas e demais violações de direitos humanos” cometidas por seus agentes, aponta o estudo.

“Se você piscar, as lágrimas descem. É assim a minha vida”

Aos 30 anos, Beatriz viu o marido, Leonel, que usava muletas, ser morto durante a Operação Escudo. Meses depois, perdeu Ryan, seu filho de quatro anos, baleado pela Polícia Militar na Operação Verão. Depois das duas mortes, passou a ter medo de deixar os demais filhos saírem de casa e de perdê-los também.

Foi a partir dos relatos de Beatriz, Marineide e Tainara que as pesquisadoras Alves e Ribeiro se dedicaram a analisar o que chamaram de “custo das ausências”.

Para elas, Beatriz externalizou uma preocupação presente nos relatos de outras mulheres: o medo da repetição da violência. “É emblemático essa preocupação ter sido colocada em palavras justamente por ela, porque, em sua experiência, a recorrência letal se concretizou”, pontuam. 

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O medo que tranca as portas de casa também barra o caminho até a escola. O cotidiano de tiroteios e incursões policiais gera uma perda significativa de aprendizado, tanto pelo fechamento das unidades de ensino quanto pelo trauma que impede a concentração dos alunos, indica o relatório.

Tainara conta que seus filhos faltaram tanto à escola após a morte do pai que ela sequer sabia se eles conseguiriam passar de ano. “A minha filha falou: ‘Ai mãe, chega na hora do recreio, me dá uma tristeza, uma vontade de chorar de saudades do meu pai’”, contou às autoras.

O luto infantil também surge na forma de crises de asma desencadeadas pelo estresse e de dores pelo corpo sem explicação médica aparente. O filho de 11 anos de Tainara, por exemplo, passou a apresentar dores de cabeça e nos pés sempre que chegava a hora de ir para a aula. 

A deterioração da saúde mental de quem sobrevive

Enquanto tentam acolher o sofrimento dos filhos e lidam com o próprio, essas mulheres precisam também pensar em como sobreviver. Na maioria dos casos analisados, a vítima da letalidade policial era a principal provedora financeira do lar. 

Com a morte de José Marcelo, a renda da família de Tainara despencou de um salário mínimo para cerca de R$ 900 mensais, quantia composta por “bicos” informais e auxílios governamentais. A renda de Beatriz, por sua vez, é nula. “Depois que ele se foi, parece que duplicou a dificuldade dentro de casa, tanto mentalmente como financeiramente”, diz.

A pesquisa aponta que o Estado, após exercer seu braço armado para produzir a morte, oferece apenas uma reparação mínima e burocrática por meio da assistência social. Sem creches com horários adequados e sem apoio psicossocial contínuo, a conciliação entre o trabalho e o cuidado é mais uma violência.

O custo dessas ausências é, por fim, a deterioração da saúde mental das sobreviventes. Relatos de insônia, crises de ansiedade e depressão são a regra entre as entrevistadas, que agora dependem de calmantes e antidepressivos para suportar a rotina. “Parece que eu vivo num rio de lágrimas… se você piscar, as lágrimas descem”, relata Tainara.

Governo minimizou denúncias de violações

Parte dos achados do relatório não são novos, mas denunciados desde o início da primeira fase da operação por veículos de imprensa, entidades de direitos humanos e pelos próprios moradores dos territórios-alvo. Mesmo assim, o Governo do Estado de São Paulo não só promoveu uma nova ação no território, a Operação Verão, como debochou das denúncias feitas por organismos de defesa dos direitos humanos.

Protesto em frente à Secretaria de Segurança Pública contra a Operação Escudo, em 3 de agosto de 2023 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

“Tem uma turma profissional pra caramba que tá dando o máximo, tá dando a vida, tá se expondo ao risco pra proteger você, pra proteger ele, pra me proteger, pra proteger a sociedade […] Então, sinceramente, nós temos muita tranquilidade com relação ao que está sendo feito. E aí, o pessoal pode ir na ONU, na Liga da Justiça, no raio que o parta, eu não tô nem aí”, disse Tarcísio durante uma coletiva de imprensa em 8 de março de 2024.

No mesmo dia, a ONG Conectas e a Comissão Arns denunciaram o que chamam de “operações letais e escalada da violência policial na Baixada Santista, em São Paulo, promovida pelo governador”, segundo matéria veiculada pelo g1. A denúncia foi feita durante a 55ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra (Suíça).

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Já o deputado federal Guilherme Derrite (PP), na época à frente da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), chamou as violações de ‘efeitos colaterais’: “O combate ao crime organizado vai gerar alguns efeitos colaterais, como a gente mencionou aqui, essa questão de reclamações. ‘Olha, o indivíduo foi… Está dizendo que aconteceu isso, que foi torturado’. O que a gente promete pra população é não abaixar a guarda, defender a sociedade, combater o crime”.

Para as pesquisadoras, essas declarações ajudam a explicar por que a Operação Escudo é um exemplo cruel do que é reiteradamente nomeado como “guerra às drogas”, “guerra ao crime” ou, mais especificamente, “guerra ao crime organizado”. Para elas, as guerras podem até ser declaradas às substâncias, mas são destinadas às pessoas.

Para o Instituto Vladimir Herzog, a Operação Escudo não é um desvio do regime democrático, mas a materialização de uma matriz de violência racial que contesta as promessas de cidadania plena e igualdade das diversas transições inconclusas experienciadas no Brasil: “Da abolição inconclusa, da transição democrática inconclusa e de tantos outros processos políticos institucionais inacabados”.

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