Artigo | Quem tem medo das câmeras corporais em PMs?

Com falhas na cobertura e uso seletivo, as câmeras corporais servem mais para acusar do que para proteger vítimas da violência policial

Ilustração: Antonio Junião/Ponte Jornalismo

Os Estados brasileiros, em sua maioria, têm câmeras corporais em seu efetivo policial, mas o número de equipamentos não cobre todo o trabalho operacional. Foi o que o levantamento da Ponte Jornalismo apontou após análise de dados obtidos via LAI (Lei de Acesso à Informação). São Paulo, por exemplo, possui 12 mil aparelhos para 82 mil policiais. E vale relembrar, caro leitor, que o governo Tarcísio declarou o fim da gravação ininterrupta, ou seja, os próximos aparelhos comprados entregarão nas mãos da própria corporação a decisão do que será ou não gravado.  

Apesar de serem mais utilizadas para acusados de crimes do que para checar violações feitas por PMs no exercício de suas funções, o uso das câmeras corporais é uma forma de controle da atividade desses agentes, mas não é o que se tem visto na maioria dos casos. Alguns agentes, mesmo com câmeras, conseguiram dar um jeitinho para não gravar momentos em que claramente estão descumprindo as leis, conforme a Ponte demonstrou no caso de Kaique Passos. As imagens revelaram que os policiais taparam as câmeras durante a ação que matou o jovem em 2022.

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Quando não existem câmeras corporais, casos como a agressão de PMs a um casal em Valinhos passam com a palavra dos agentes. No Boletim de Ocorrência desse episódio, os agentes descrevem que fizeram uso moderado da força contra Luiz Henrique e atingiram acidentalmente Samara durante abordagem. Entretanto, as câmeras de segurança da residência da família mostram que Luiz não agrediu os PMs, e sim o contrário, e que Samara foi atingida de propósito em seu rosto ao tentar ajudar o marido que era agredido sem chance nenhuma de defesa ou reação. 

Na gravação, Samara ainda relata que nunca tinha apanhado de homem algum, ao que um policial responde: “por isso que você é assim”. Dúvido que ele diria isso a uma madame de algum bairro nobre. Se não fossem as câmeras da casa, também não saberíamos que, durante a ação, um dos policiais ameaçou algemar a mulher, ou não ouviríamos os gritos de socorro de Luiz vindo da viatura onde ele foi colocado. A verdade do casal nunca teria vindo à tona sem as imagens. No B.O., consta que os PMs não usavam o equipamento de gravação. Foram as imagens que desmentiram a versão dos policiais.

“Ah, mas esse equipamento é caro”, será alegado por alguns. Sim, tecnologia de ponta custa dinheiro. Mas vale lembrar que o governo estadual desembolsou R$ 428,3 milhões em pagamento de bônus para os PMs no ano passado. A mesma administração estadual alegou que a compra de 10.125 aparelhos com gravação ininterrupta, que custavam R$ 83,6 milhões ao ano, era um “gasto excessivo”. Com o valor do bônus, o estado bancaria os equipamentos por 5 anos. Prioridades peculiares tão perto de 2026, não acha? 

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Cada dia fica mais claro o interesse do governador Tarcísio de Freitas e de seu secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite em não conter a tropa e deixar de tudo acontecer: idosa ter carrinho de feira apreendido, tortura diante de crianças, matar criança e jovens na frente de casa, dar tiro em trabalhador durante a folga ou estuprar mulher dentro de viatura. A PM em São Paulo está podendo tudo e ainda ganha bônus por sua efetividade. Talvez não seja por combater o crime, mas um corpo inocente tombado no chão. Afinal, o tráfico segue aí, os roubos e latrocínios continuam acontecendo e a solução é botar mais policiamento ostensivo na rua. Que já cansamos de falar que não tem resolvido o problema há décadas (mas seguiremos falando, viu? Pode apostar isso). 

O Grande Irmão da vigilância pode observar a todos nós nas ruas, nas escolas e em outros lugares. Estão aí o SmartSampa da Prefeitura de São Paulo e o Muralha Paulista do governo estadual que não me deixam mentir. Ou mesmo o uso de reconhecimento facial para “pegar bandido” que já “confundiu” muita gente (negra) com suspeitos. Mas os agentes públicos da lei parecem ser – e estão – isentos de vigilância.

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