Quem é Doutor Nico, o novo secretário da segurança do governo Tarcísio de Freitas

    Secretário executivo da pasta chefiada pelo ex-tenente da Rota Guilherme Derrite, Osvaldo Nico Gonçalves assume cargo em meio a aumento da letalidade e crise com a Polícia Civil. Para especialista ouvido pela Ponte, permanece lógica segundo a qual “o sistema de segurança pública é um tema exclusivo da polícia”

    O delegado da Polícia Civil Osvaldo Nico Gonçalves, nomeado pelo governador Tarcísio de Freitas para lugar do ex-PM da Rota Guilherme Derrite | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

    Nomeado terça-feira (2/12) como novo secretário da segurança pública do estado de São Paulo, Osvaldo Nico Gonçalves, ex-delegado-geral da Polícia Civil, atuava como secretário executivo da pasta. Doutor Nico, como também é chamado, assume o cargo após a saída de Guilherme Derrite (PP-SP), que chefiou a pasta por dois anos e dez meses e retomou seu mandato como deputado federal, de olho nas disputas eleitorais de 2026. A mudança na chefia do órgão encerra o que o foi apontado por Claudinho Silva, ex-ouvidor das Polícias de São Paulo, como “um dos maiores pesadelos vividos pela política de Segurança Pública do estado na história”.

    Três anos depois da posse de Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) volta a ser comandada por um civil. Nenhum militar havia estado à frente da pasta desde o fim da ditadura militar, o que foi quebrado pelo atual governador ao colocar Derrite, ex-capitão da Polícia Militar expulso da Rota, força de elite da polícia paulista, como secretário. O período foi marcado por operações de alta letalidade e aumento expressivo das mortes decorrentes de intervenção policial.

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    O até então número dois da pasta dava apoio a Derrite, segundo suas próprias palavras, com “estratégias de combate ao crime organizado e redução dos índices criminais”. Nico já havia assumido a dianteira em casos de grande repercussão midiática, como o assassinato do delator do PCC Vinícius Gritzbach, em novembro de 2024. O mês, que já acumulava as mortes do menino Ryan Santos, de 4 anos, na Baixada Santista, de Gabriel Soares, sobrinho do rapper Eduardo Taddeo, morto por um policial militar de folga numa unidade Oxxo, e do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, baleado por um policial militar em hotel na zona sul de São Paulo, marcou o ponto de maior pressão sobre Derrite, que desapareceu — deixando as aparições públicas para o secretário-executivo da pasta.

    É a primeira vez que um membro da Polícia Civil chega ao mais alto posto da segurança no estado. A escolha pode ser considerada um aceno à Polícia Civil, instituição preterida por Tarcísio e Derrite ao longo da gestão. Durante o mandato, PMs receberam aumentos salariais maiores do que as demais polícias, prerrogativas da PM foram alargadas com a permissão de uma espécie de investigação e lavração de atos antes reservados à Polícia Civil, e um investigador da Polícia Civil foi morto em serviço por um policial militar das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Os militares são também a categoria que mais se beneficia com “bonificações por resultados” que repassaram, até o início de 2025, mais de R$ 800 milhões à instituição.

    Disputa sobre Lei Orgânica das Polícias Civis marcou gestão

    Servidores da polícia civil realizaram duas manifestações cobrando por mais diálogo e pela resolução do impasse sobre a lei orgânica que rege a profissão. Tarcísio deve atualizar o texto, de 1979, para se adequar à Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis, de 2023, e chegou a nomear para a coordenação da regulamentação um ex-coronel da PM, o que causou ainda mais insatisfação entre policiais civis.

    O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp) parabenizou Nico pela chegada ao cargo. Em nota, a organização disse esperar “que a nova gestão seja de maior diálogo, principalmente com a entidade”, e haver grande expectativa justamente sobre as definições acerca da lei orgânica da corporação.

    Para Rafael Alcadipani, professor da FGV e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a mudança a ser promovida com a chegada de Nico é justamente no diálogo. O pesquisador aponta que o ex-delegado-geral é reconhecido por sua capacidade de conversar com os diferentes grupos que compõem a segurança pública sem ser atravessado por ideologia política, o que o diferencia do gestor anterior, que era “uma pessoa de diálogo difícil, muito matizado politicamente”. “O Doutor Nico é uma pessoa que tem uma vasta experiência na Polícia Civil e que não está presa a nenhum tipo de ideologia política. Se eu tivesse que dar uma marca [a ele], seria a do diálogo”.

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    Claudinho Silva também demonstra respeito pela trajetória de Nico na Polícia Civil. “Diferentemente do Derrite, eu tenho muito respeito pelo Doutor Nico. Não pelo trabalho como secretário-adjunto [da SSP], mas por sua trajetória na Polícia Civil”. O ex-ouvidor aponta, porém, não acreditar em uma mudança significativa na forma como a SSP tem se comportado até então. “O Doutor Nico vai administrar uma Secretaria aparelhada pelo bolsonarismo e pela gestão e pensamento do Guilherme Derrite. Tanto é que o homem de confiança do Derrite na Secretaria, o Coronel Paulo Maculevicius, será adjunto do Nico”, diz.

    “Na minha opinião, nada muda na SSP, mesmo tendo uma pessoa que respeito, tenho carinho e avalio ser séria à frente do órgão. O aparelhamento do sistema de Segurança Pública de São Paulo permanece”, analisa Claudinho. Uma visão compartilhada por Almir Felitte, advogado e pesquisador, autor do livro “A História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente?”.

    “Será interessante ver se a nomeação de um delegado vai frear algumas insatisfações dentro da Polícia Civil paulista com o atual governo ou não”, pondera o especialista, que acha difícil imaginar alguma mudança substancial porque “o Nico já era um nome ligado ao projeto do governo Tarcísio antes [da nomeação]”. “O que podemos ter certeza é de que foi mantida a lógica de que, para esse grupo político que está no poder, o sistema de segurança pública é um tema exclusivo da polícia, no qual a sociedade civil não tem o direito de participar de sua construção”, afirma Almir.

    Aumento dos feminicídios e do crime organizado são desafios

    Para Alcadipani, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o novo secretário assume o cargo com três grandes desafios negligenciados pelo antecessor. O primeiro é conter a escalada dos números de feminicídio. A cidade de São Paulo registrou números recordes do crime em 2025, mesmo ainda antes da divulgação dos números de novembro e dezembro. O pesquisador aponta que havia uma estrutura da SSP que funcionava bem para pensar políticas específicas para conter a violência contra a mulher, mas que isso foi desmontado na atual gestão.

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    A segunda grande pauta é a de contenção do crime organizado, utilizando a SSP para apoiar a integração das polícias e ações conjuntas contra o crime. Por fim, ele aponta, Nico deverá enfrentar o sucateamento da polícia, especialmente da civil, e prover “uma modernização expressiva da gestão das instituições policiais”. Para o pesquisador, isso pela valorização do policial prometida por Tarcísio e Derrite em campanha.

    “Muito foi prometido aos policiais em São Paulo sobre remuneração, melhoria de condições de trabalho, e muito pouco foi entregue por esse governo e pela gestão Derrite”, diz o professor. “O Doutor Nico tem esse desafio de melhorar tanto a questão do equipamento quanto a questão da saúde mental e as condições de trabalho do policial de São Paulo, que foi muito deteriorada ao longo dessa gestão Derrite.”

    O delegado das estrelas

    Nico começou sua carreira policial como investigador da Polícia Civil, ainda durante a ditadura militar, em 1979. Em 1992, passou no concurso para delegado da instituição. Na estrutura da polícia civil, Nico fez parte da criação do Grupo de Operações Especiais (GOE), unidade de elite da polícia treinada para situações de alto risco, e do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (DOPE), responsável por operações envolvendo crimes complexos. Em 2022, se tornou delegado-chefe da Polícia Civil, cargo que ocuparia até passar a integrar o governo de Tarcísio.

    Sua carreira policial foi marcada por casos midiáticos. Em 2001, ele participou das operações que encerraram o sequestro de Silvio Santos e sua filha, Patrícia Abravanel. No ano seguinte, esteve envolvido na prisão do mentor do sequestro de Washington Olivetto. Em 2005, Nico prendeu um jogador de futebol argentino ainda em campo, após o apito final, por injúria racial contra o então jogador do São Paulo Futebol Clube, Grafite. O esportista ficou dois dias sob custódia da Polícia Civil de São Paulo.

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    Sua carreira ainda envolveu participações nas midiáticas prisões do médico abusador Roger Abdelmassih e de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), foragido da justiça em investigação que apurava esquema de “rachadinha” e escondido na casa de Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro, em Atibaia (SP). Nico e sua família são também donos da rede de pizzarias Sala Vip, existente desde 1992.

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