Quem é Guilherme Derrite, secretário de Tarcísio indicado como relator do PL Antifacção

    Ex-tenente da Rota investigado por 16 homicídios, ele foi eleito deputado e virou secretário da Segurança Pública antes de voltar à Câmara para relatar o projeto. Gestão em São Paulo teve avanço do crime organizado dentro da própria PM

    Derrite, secretário da Segurança Pública na gestão Tarcísio de Freitas | Foto: Celso Silva/Governo do Estado de SP

    A discussão sobre o projeto de lei 5582/25, proposto pelo governo Lula (PT) como PL Antifacção e agora chamado por parlamentares de Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, trouxe à tona um personagem não tão conhecido no noticiário nacional. Trata-se de Guilherme Derrite (PP-SP), escolhido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para ser relator do texto.

    Guilherme Muraro Derrite foi eleito deputado federal por São Paulo pelo segundo mandato consecutivo em 2022, mas praticamente não exerceu o cargo na atual legislatura. No começo de 2023, foi empossado como parlamentar, mas logo se licenciou da função em Brasília para poder atuar em seu estado como secretário de Segurança Pública no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).

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    Derrite voltou ao posto de deputado desde então em apenas duas ocasiões. Na primeira delas, em março do ano passado, pediu exoneração da Secretaria de Segurança Pública paulista (SSP-SP) para relatar na Câmara o projeto de lei 2253/2022, também chamado de PL da Saída Temporária. O texto restringiu o benefício da saída temporária para pessoas presas e passou a exigir exame criminológico para todos os casos de concessão de progressão de regime no cumprimento de pena. O presidente Lula sancionou o projeto à época apenas com veto a um trecho que proibia a saída aos apenados em semiaberto que fossem visitar a família — posteriormente, o Congresso Nacional derrubou esse veto.

    Derrite se licenciou da SSP-SP agora pela segunda vez com a intenção, a princípio, de assumir a relatoria do projeto de lei 1283/2025, que previa classificar facções criminosas como terroristas. No entanto, ele acabou designado ao PL Antifacção, cujo regime de tramitação é de urgência.

    Relator já se vangloriou de mortes quando era PM

    Antes de ser deputado e depois secretário, Derrite era policial militar desde 2003. Foi tenente durante a maior parte da carreira, uma das patentes mais baixas entre oficiais, e passou para a reserva como capitão, em 2018. Durante quatro anos, atuou nas Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota), a unidade policial que mais mata no estado e da qual disse ter sido convidado a se retirar. “A real? Porque matei muito ladrão”, relatou a um canal do YouTube sobre o motivo de ter saído da Rota. Conforme mostrou a revista piauí, ele foi investigado por 16 homicídios em seu período na corporação.

    Em 2015, já afastado das ruas e servindo ao Corpo de Bombeiros, Derrite foi preso administrativamente pela Corregedoria da PM-SP porque, conforme revelou a Ponte, enviou a colegas um áudio no qual dizia ser “vergonhoso” um policial não ter participado de ao menos três mortes em cinco anos de carreira.

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    A declaração havia sido feita em solidariedade ao capitão da PM-SP e atual deputado estadual Rafael Telhada (PP-SP) — filho de Paulo Telhada (PP-SP), que hoje é subprefeito da Lapa, na cidade de São Paulo, na gestão Ricardo Nunes (MDB), além de suplente de deputado federal e coronel reformado da Polícia Militar. Com histórico de participação em ocorrências com mortes, Rafael, também chamado de Telhadinha, tinha sido transferido da Rota à época do áudio.

    Em 2023, em entrevista à Folha de S.Paulo, Derrite disse se arrepender do áudio e que não carregava com orgulho as ocorrências em que matou alguém. “Da minha parte, eu tenho falado isso publicamente, da nossa parte não há estímulo ao confronto, pelo contrário. A gente sabe que é perigoso para o policial, é perigoso para a sociedade agora.”

    Manifestantes pediram a saída de Derrite em ato na capital paulista | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

    Derrite defendeu ação em que menino de 4 anos foi morto

    Apesar da declaração contrária aos confrontos, primeiro ano de Derrite na SSP-SP, o número de mortes cometidas pelas polícias voltou a subir no estado após três anos de queda. O episódio mais crítico daquele ano foi a Operação Escudo, ação policial acompanhada de perto pelo secretário e pelo governador Tarcísio, que a elogiaram — na ocasião, 28 pessoas foram mortas pela PM-SP na Baixada Santista após a morte do sargento Samuel Wesley Cosmo, de 35 anos, da Rota, no que especialistas definiram como uma “operação vingança”.

    No segundo ano de Derrite, a PM-SP protagonizou um episódio ainda mais letal: a Operação Verão, com 56 mortes. O secretário também saiu em defesa da corporação na ocasião, assim como fez diante do assassinato do menino Ryan da Silva Andrade dos Santos, de apenas quatro anos, cometido pela PM-SP em uma outra ação, quando a vítima brincava em frente à casa de familiares.

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    “A gente lamenta muito, um dia triste para o estado de São Paulo, para as forças policiais. Uma criança inocente, uma vida que foi interrompida, lamentavelmente, mas dizer que nenhum policial queria que essa tragédia acontecesse. Isso só aconteceu infelizmente porque os policiais foram agredidos a tiros“, disse.

    Aquele ano de 2024 foi o que teve a maior alta de letalidade policial em uma década no estado (61,5%), com 814 mortes. As polícias de São Paulo mataram mais na ocasião mesmo submetidas a um menor número de confrontos e também prenderam menos. Além de prestar apoio público à corporação diante das operações mais letais, a gestão Derrite também afrouxou controles internos dos policiais. Agora em 2025, a letalidade policial segue pior do que o patamar anterior a Tarcísio e Derrite. Em nove meses, houve mais mortes do que no primeiro ano inteiro do atual governo.

    Secretário ignora combate ao tráfico ao pagar bônus para policiais

    Com Derrite à frente da SSP-SP, as câmeras corporais utilizadas pelo policiais foram trocadas: agora, não são mais usados aparelhos com gravação ininterrupta. A gestão estadual argumentou, entre outras coisas, que o modelo anterior impunha altos custos ao Estado: a Ponte revelou, no entanto, que uma bonificação para os PMs paulistas só no ano passado bancaria cinco anos das câmeras antigas.

    Trata-se da bonificação por resultados, um adicional vinculado a metas com o qual Tarcísio tem privilegiado a distribuição de recursos públicos a policiais militares. Derrite tem autorizado esse bônus sem considerar entre os objetivos a serem atingidos o combate a crimes como tráfico de drogas, estupro, estelionato, sequestro, desaparecimento forçado, lesão corporal seguida de morte e posse ilegal de arma de fogo, entre outros.

    Derrite e Tarcísio também têm privilegiado policiais militares em relação aos policiais civis — a gestão estadual já causou revolta por dar aumentos salariais maiores a PMs, priorizar militares na revisão da Lei Orgânica da Polícia Civil e também por dar à Polícia Militar atribuições que cabem aos civis.

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    Além disso, o secretário já se indispôs com membros da própria PM-SP, em 2024, ocasião em que trocou de posto 34 de 63 coronéis da ativa, substituindo de posições estratégicas oficiais entusiastas do uso de câmeras corporais e críticos das operações letais protagonizadas pela PM-SP. Parte deles só soube das mudanças por meio do Diário Oficial do Estado de São Paulo (DOE-SP).

    O episódio junto ao alto oficialato da PM-SP foi um dos que colocaram maior pressão sobre Derrite no cargo, assim como a série de casos de violência policial de novembro do ano passado que tiveram grande projeção na imprensa: além da morte de Ryan, houve os assassinatos do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, de 22 anos, e de Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, sobrinho do rapper Eduardo Taddeo, ex-integrante do Facção Central. Também houve o flagrante do soldado da Polícia Militar Luan Felipe Alves Pereira jogando um homem de cima de uma ponte.

    Senador Ciro Nogueira (à direita de cada frame) publicou vídeo ao lado de Guilherme Derrite divulgando evento sobre segurança pública em outubro | Foto: Reprodução

    Gestão Derrite teve avanço do crime organizado dentro da PM-SP

    A pressão sobre Derrite ao final do ano passado também foi impulsionado pelo caso de Vinicius Gritzbach, em que um empresário delator de policiais e de membros da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) foi morto a tiros em plena luz do dia no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Por conta do episódio, foram presos 17 policiais militares, incluindo os executores do crime e agentes que faziam “bico” de segurança privada para o delator, além de cinco policiais civis. À época, Derrite não se manifestou publicamente sobre o caso e escalou o secretário-executivo da Segurança Pública, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, para tratar dele.

    Para especialistas ouvidos pela Ponte, a aparente infiltração do crime organizado nas forças de segurança tinha como principal motivo a falta de controle da atividade policial, agravada na gestão de Tarcísio e Derrite. O entendimento comum era que, quando não responsabilizados por excessos em sua conduta profissional e insubmissos ao crivo da sociedade, policiais passam a fazer uso do poder coercitivo de Estado do qual dispõem para benefício próprio — ou seja, de modo criminoso. Deixam, portanto, de compor polícias e, eventualmente, formam até milícias.

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    Ainda em função do caso Gritzbach, a Corregedoria da PM-SP identificou policiais que teriam vazado informações sobre operações policiais ao PCC. Entre os investigados, estava José Roberto Barbosa de Souza, o Barbosinha, ex-integrante da Rota que é amigo de Derrite. A SSP-SP negava a relação de ambos, mas o secretário já trocou elogios e histórias com o cabo Barbosa em um podcast. Eles também já haviam sido filmados trabalhando juntos no período de Rota.

    O entorno de Derrite também já apareceu vinculado ao crime organizado em reportagens do ICL Notícias e do UOL de setembro deste ano. A ambos os veículos, um piloto de avião que trabalhava para suspeitos de integrar o PCC relatou ter transportado para Brasília uma sacola de dinheiro que teria como suposto beneficiário o senador Ciro Nogueira (PP-PI). Ciro é presidente do partido Progressistas, ao qual Derrite se filiou em maio deste ano, cotado para uma vaga no Senado e até para o governo de São Paulo na próxima eleição — até então, ele estava no partido Liberal, de Jair Bolsonaro, do qual foi vice-líder de governo na Câmara na legislatura anterior.

    Em outubro, os dois estiveram juntos em um evento em São Paulo promovido pelo PP e pela Fundação Francisco Dornelles, entidade ligada à sigla, para debater segurança pública. No mês anterior ao encontro, Ciro tratou da iniciativa em um vídeo publicado nas redes sociais, no qual aparecia ao lado de Derrite. “Sabemos que o Brasil só vai andar quando o crime não compensar”, discursou o senador, no registro. “Vamos juntos encontrar medidas legislativas e operacionais que ajudem a atacar o crime organizado”, disse o secretário. Ativo nas redes sociais, Derrite não divulgou o vídeo, que foi publicado apenas nas contas de Ciro Nogueira, do PP e da Fundação Francisco Dornelles no Instagram.

    Derrite prioriza carreira política e quer concentrar poder na PM, diz pesquisador

    Para o advogado e pesquisador Almir Felitte, autor de A História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente?, a escolha de Derrite para relatar o PL sobre as facções é absolutamente incoerente.

    “Desde o caso Gritzbach, ficou muito explícito que o crime organizado só encontra terreno fértil no estado porque conta com a anuência de pessoas dentro das instituições policiais. Ao lado disso, você tem, dentro das próprias forças policiais, a formação de núcleos de crime organizado, como foi descoberto no ano passado com as milícias que atuavam no Brás e na região da Cracolândia [no centro da cidade de São Paulo]”, diz. “Se tem alguma marca dele enquanto secretário, eu diria que é essa, ao lado da explosão da violência policial. Antes de querer explicar para o país qualquer coisa sobre combate ao crime organizado, ele deveria ser cobrado pelo que está acontecendo no estado dele.”

    Almir avalia ainda que a volta de Derrite à Câmara tem como um de seus objetivos os ganhos políticos que a relatoria do projeto pode lhe render. Essa prioridade já havia sido sinalizada, segundo o pesquisador, quando o secretário ainda integrava a PM-SP e teve vazado o áudio em que elogiava policiais matadores — na eleição seguinte àquele episódio, ele foi eleito deputado pela primeira vez.

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    “Isso acontece muito com esses policiais que se tornam políticos: ainda na ativa, viram notícia com atitudes e declarações polêmicas. Então, o que a gente vê é uma continuidade do que o Derrite já fazia, que é buscar pautas de destaque na segurança pública para subir degraus na política.”

    Além disso, para o especialista, a intenção do secretário é garantir interesses da extrema-direta no PL Antifacção. “O pacto federativo da segurança pública brasileira, enfim, entrou em debate, e as polícias estaduais querem manter o ineficiente modelo atual para continuar concentrando poder para si. Outro ponto é a questão do terrorismo, que se insere no atual cenário em que certas forças políticas buscam meios de facilitar a intervenção estrangeira no Brasil, como acontece na questão do tarifaço. Derrite também faz parte desse projeto político e, hoje, é um de seus principais personagens. Ele só não contava que enfrentaria tanta resistência. Sua jogada pode acabar sendo um tiro no próprio pé.”

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