Crítica | O Agente Secreto e o estado de exceção permanente

    Filme de Kleber Mendonça Filho protagonizado por Wagner Moura conta a história de um pai e pesquisador tido como inimigo na ditadura empresarial-militar. Obra denuncia AI-5 do guarda da esquina e autoritarismo difuso que se mantém no país

    Cena de abertura de O Agente Secreto é precisa em dizer onde estamos | Foto: Divulgação

    O Agente Secreto consegue dizer onde estamos já na primeira cena — e a quem ainda não assistiu ao filme de Kleber Mendonça Filho, adianto que irei descrevê-la e trazer neste texto outros spoilers do longa-metragem, o qual recomendo que você veja. A câmera passeia pelo alto em um cenário inóspito e terroso, como em uma abertura de um filme de bangue-bangue, e se aproxima de um posto de combustíveis à beira de uma estrada. Ela para ao mostrar uma pessoa morta estirada no chão.

    Marcelo, personagem interpretado por Wagner Moura, chega ao local em um Fusca amarelo de tanque vazio e se assusta com o cadáver, coberto de qualquer jeito com um papelão e rodeado de moscas. Um funcionário do local tenta então tranquilizá-lo: é só um “meliante” que foi morto a tiros ao tentar roubar o posto. O patrão e as autoridades, diz ainda, já estão cientes. Não há com o que se preocupar ali, a não ser com o cheiro cada vez pior.

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    Há outras pistas de onde estamos: a música que toca no rádio do Fusca, um canavial que cerca a estrada e um bando de vira-latas caramelo que tenta se aproximar do corpo. Chegam então ao local dois policiais em uma viatura. O motivo da vinda não é o cadáver que apodrece há dias, mas Marcelo, o único cliente que se encoraja a permanecer ali.

    Ele é abordado por um dos policiais, que mantém um tom intimidador. O agente pede documentos, insiste em revistar o interior do veículo e questiona se o motorista, um homem de barba por fazer e desacompanhado (porque as aparências importam aqui), “puxa um fumo”, o que o abordado nega. Em uma última tentativa, sugere, sem constrangimento, que o estepe do carro estaria “careca”, o que também não é verdade.

    Estado de exceção militarizado e violento

    Não há nada que desabone ou incrimine Marcelo. E o policial assume então a que veio: pede uma contribuição para a caixinha de Carnaval da corporação. Quer suborno. O motorista responde que gastou o último dinheiro que tinha para abastecer. Só tem agora um maço com três cigarros, o que o policial aceita como “arrego” para deixá-lo seguir viagem.

    A cena é didática: em um mesmo local, duas pessoas tentaram roubar alguém, mas só uma delas, a que não vestia farda, é agora um corpo baleado no chão. Definitivamente, o filme já mostra que estamos em um estado de exceção militarizado e violento, onde rouba e mata quem pode, e morre quem não tem autoridade para isso. Estamos no Brasil.

    A abertura é absolutamente atual, de um Brasil em que um ou até 60 corpos ainda podem ficar expostos a céu aberto, e não somente escondidos nos porões do Estado. No entanto, o filme se passa propriamente na ditadura empresarial-militar, o que Kleber Mendonça Filho esclarece ao reviver com precisão o Recife dos anos 70 ao longo de O Agente Secreto.

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    Os carros antigos que atravessam o Rio Capibaribe, as manchetes dos jornais, o corte das roupas, um retrato de Ernesto Geisel em uma repartição pública, o toca-discos na sala e o óleo em lata na cozinha, os cinemas de rua que ainda existem e exibem o clássico Tubarão: é para esse Recife que Marcelo viajava com seu Fusca. Na capital pernambucana, ele passa a viver como um refugiado e planeja uma fuga com o filho pequeno enquanto se esconde de um predador à espreita, que o ameaça como um tubarão de Steven Spielberg ou da praia de Boa Viagem. 

    O filme de Kleber combina com maestria diferentes gêneros, mas pode ser definido como um thriller histórico. Seu maior entre vários acertos é a abordagem historiográfica que adota para recontar a ditadura empresarial-militar do Brasil: é a da micro-história, e não a da história geral. O longa não reproduz o imaginário canônico da ditadura. Não há tanques de guerra, o Exército nas ruas, generais com faixas de presidente, presos políticos no Rio de Janeiro, nem guerrilheiros perseguidos em São Paulo.

    O golpe não está somente na tomada do Forte de Copacabana, mas também no cinema São Luiz, na praça Chora Menino e no edifício Ofir. O centro da trama e do mundo é Recife, que a história documentada do Brasil, essa que só vê regionalismos e vieses nos outros, insiste em ignorar, em tratar como o resto do país.

    A perna na barriga do tubarão

    O diretor escolhe então exibir a vida de Marcelo, um indivíduo comum, de subjetividades que seriam invisíveis às sínteses históricas da memória oficial. Com isso, Kleber consegue também filmar o AI-5 do guarda da esquina, aquele que escapa da letra da lei e da história com o privilégio de ser registrada — e que, embora revogado, sustenta ainda hoje um autoritarismo difuso e a cultura de exceção do bandido bom é bandido morto.

    É esse o tubarão à espreita, que, em uma ida ao alfaiate aparentemente despropositada (mas nada neste filme é à toa), faz questão de mostrar que é também racista e simpatizante de supremacismos, além de ignorante de sua própria condição.

    No Recife, Marcelo é acolhido em um prédio que abriga outras potenciais vítimas do predador — o adolescente que não é homem como deveria, a mulher desquitada, os imigrantes que fogem de uma guerra. A anfitriã do local, Dona Sebastiana, brilhantemente interpretada por Tânia Maria, lembra que ali não se pode chamar as pessoas (e as coisas) pelo nome, o que é difícil, mas que isso é necessário para a segurança de todos.

    Marcelo é, na verdade, Armando — um gato de duas caras. Uma operação é, invariavelmente, uma chacina. E uma perna cabeluda que surge na barriga de um tubarão é a metáfora que resta a jornais vigiados e que encobrem corpos para se referir a um estado de exceção que oprime os desafetos do regime e tenta esconder vestígios, apesar do rastro de sangue que permanece.

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    Enquanto aguarda a fuga, como um agente secreto por acaso sob instruções de uma agência anônima igualmente à deriva, Armando é alocado para trabalhar nos arquivos da ditadura — onde se depara com a sacanagem de militares e a falta de registros de gente desprezada, as mães, os indígenas.

    O protagonista não é um líder político, um espião ou um combatente. É um pai e pesquisador acadêmico alheio à guerra alardeada pela ditadura contra o inimigo interno. Mas se o guarda da esquina age em nome do AI-5, uma mulher que não aceita ser desrespeitada vira o próprio fantasma do comunismo. O subversivo é quem diz não a alguém empoderado pelo Estado. E O Agente Secreto mostra que o AI-5 difuso é não só o do guardinha, mas também o do homem de negócios por trás do poder público, do delegado corrupto e do matador de aluguel treinado pelas forças de segurança.

    De novo, o predador que ameaça o protagonista parece atualíssimo, por cenas que remetem ao caso ainda sem justiça de Miguel Otávio Santana da Silva, o menino de quatro anos que morreu ao cair de um prédio no Recife após ser abandonado pela patroa da mãe, e aos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, cometidos por dois ex-PMs a mando de poderosos do Estado. Ambos são episódios não da ditadura, mas de uma democracia que ainda não é plena a depender da cor da pele, do CEP e da conta bancária. 

    Um filme sobre a memória

    Em outra cena simbólica, Armando assume sequer compreender a razão pela qual é jurado de morte. Me lembrou de dona Zilda Maria de Paula, de 72 anos, cujo único filho, Fernando Luiz de Paula, foi assassinado aos 34 anos, em 2015, na Chacina de Osasco e Barueri. Na ocasião, uma milícia de policiais e guardas executou 17 pessoas em uma matança indiscriminada nas duas cidades da região metropolitana de São Paulo, porque pretendia fazer uma “limpeza social” nas ruas e em pequenos comércios que julgava serem frequentados por criminosos, por subversivos. “É revoltante, porque esses meninos nem sabem por que morreram”, ela me disse quando o caso completou dez anos.

    Foi também assim no Curió, em Acari, no Cabula, em Paraisópolis e tantos outros casos já noticiados aqui na Ponte. O estado de exceção militarizado e violento ainda está aqui, com mortes invariavelmente sem esclarecimento ou responsabilização, como nos despedimos com frustração de Armando — à imprensa, tanto faz, porque quem morre é o suspeito, e não uma pessoa.

    No longa-metragem de Kleber, há também um Fernando, o filho de Armando, que é interpretado por Enzo Nunes quando criança e depois por Wagner Moura. Ele é o personagem central para nos dizer que O Agente Secreto é, sobretudo, um filme sobre memória.

    O menino diz, em uma carta ao pai, que já quase se esqueceu da mãe em seu processo silencioso de luto, em que sonha ver Tubarão, enquanto tem pesadelos com o tubarão. A trama pessoal dele e a vida no cinema São Luiz remetem ao nostálgico Cinema Paradiso, no qual um outro garoto, Totó, também amparado por um senhor projecionista, sonha em ver o que não pode.

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    Assim como no clássico italiano, o cinema em O Agente Secreto é guardião da memória, ameaçado por prioridades de novos tempos — seja um estacionamento ou um banco de sangue. Depois de adulto, Fernando, que herda como Totó arquivos do passado, já pôde ver Tubarão, mas se nega a relembrar do tubarão. Não se recorda da mãe, nem do pai.

    O filme de Kleber Mendonça Filho honra essa memória que também nos escapa, de um passado que não passa. É a lembrança de onde estamos.

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